Magna Concursos
1461119 Ano: 2019
Disciplina: Português
Banca: BRB
Orgão: Pref. Bom Jesus Serra-BA
Provas:

TEXTO PARA AS QUESTÕES 01 E 02


Dom Quixote


Com suas voltas e reviravoltas, as aventuras de Dom

Quixote traçam o limite: nelas terminam os jogos antigos da

semelhança e dos signos; nelas já se travam novas relações.

Dom Quixote não é o homem da extravagância, mas antes o

peregrino meticuloso que se detém diante de todas as

marcas da similitude. Ele é o herói do Mesmo. Assim como

de sua estreita província, não chega a afastar-se da planície

familiar que se estende em torno do Análogo. Percorre-a

indefinidamente, sem transpor jamais as fronteiras nítidas da

diferença, nem alcançar o coração da identidade. Ora, ele

próprio é semelhante a signos. Longo grafismo magro como

uma letra, acaba de escapar diretamente da fresta dos livros.

Seu ser inteiro é só linguagem, texto, folhas

impressas, história já transcrita. É feito de palavras

entrecruzadas; é escrita errante no mundo em meio à

semelhança das coisas. Não porém inteiramente: pois, em

sua realidade de pobre fidalgo, só pode tornar-se cavaleiro,

escutando de longe a epopeia secular que formula a Lei.

O livro é menos sua existência que seu dever. Deve

incessantemente consultá-lo, a fim de saber o que fazer e

dizer, e quais signos dar a si próprio e aos outros para

mostrar que ele é realmente da mesma natureza que o texto

donde saiu. Os romances de cavalaria escreveram de uma

vez por todas a prescrição de sua aventura. E cada episódio,

cada decisão, cada façanha serão signos de que Dom

Quixote é de fato semelhante a todos esses signos que ele

decalcou.

Mas se ele quer ser-lhes semelhante é porque deve

prová-los, é porque os signos (legíveis) já não são

semelhantes a seres (visíveis). Todos esses textos escritos,

todos esses romances extravagantes são justamente

incomparáveis: nada no mundo jamais se lhes assemelhou;

sua linguagem infinita fica em suspenso, sem que qualquer

similitude venha jamais preenchê-la; podem ser queimados

todos e inteiramente, mas a figura do mundo não será por

isso alterada.

Assemelhando-se aos textos de que é o testemunho,

o representante, o real análogo, Dom Quixote deve fornecer

a demonstração e trazer a marca indubitável de que eles

dizem a verdade, de que são realmente a linguagem do

mundo.

Compete-lhe preencher a promessa dos livros. Cabe-

lhes refazer a epopeia, mas em sentido inverso: esta narrava

(pretendia narrar) façanhas reais prometidas à memória; já

Dom Quixote deve preencher com realidade os signos sem

conteúdo da narrativa.

Sua aventura será uma decifração do mundo: um

percurso minucioso para recolher em toda a superfície da

terra as figuras que mostram que os livros dizem a verdade.

A façanha deve ser prova: consiste não em triunfar

realmente - é por isso que a vitória não importa no fundo -,

mas em transformar a realidade em signo. Em signo de que

os signos da linguagem são realmente conformes às próprias

coisas.

Dom Quixote lê o mundo para demonstrar os livros. E

não concede a si outras provas senão o espelhamento das

semelhanças. Seu caminho todo é uma busca das

similitudes: as menores analogias são solicitadas como

signos adormecidos que cumprisse despertar para que se

pusessem de novo a falar. Os rebanhos, as criadas, as

estalagens tornam a ser a linguagem dos livros, na medida

imperceptível em que se assemelham aos castelos, às damas

e aos exércitos. Semelhança sempre frustrada, que

transforma a prova buscada em irrisão e deixa

indefinidamente vazia a palavra dos livros. Mas a própria

não-similitude tem seu modelo que ela imita servilmente:

encontra-o na metamorfose dos encantadores.

De sorte que todos os indícios da não-semelhança,

todos os signos que mostram que os textos escritos não

dizem a verdade assemelham-se a esse jogo de

enfeitiçamento que introduz, por ardil, a diferença no

indubitável da similitude.

E, como essa magia foi prevista e descrita nos livros,

a diferença ilusória que ela introduz nunca será mais que

uma similitude encantada. Um signo suplementar, portanto,

de que os signos realmente se assemelham à verdade.

Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.

O mesmo tipo de sujeito de “Os romances de cavalaria escreveram de uma vez por todas a prescrição de sua aventura” (linha 23 e 24) é o mesmo que e encontra em:

 

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