“Como é que pode ter tanto vaga-lume, meu Divino?” — perguntava a si mesmo o camarada admirado da infinidade de pirilampos que riscavam a noite. Riscavam na copa dos muricis, dos paus-terra, das lobeiras da frente do rancho. Piscavam nos ares, aqueles traços de fogo imitantes fagulhas de queimada. “Que nem Homero ferreiro”. Homero com avental de couro, a peitaria à mostra, metendo o malho no ferro que espirrava pirilampos, enquanto a foice ia saindo. Ah, enxada! Se Homero não vivesse dormindo pelas ruas, amanhã mesmo iria encomendar uma enxada para Homero, enxada de duas libras. Se tivesse enxada, não seria novamente preso, não levaria chicotadas no lombo, não seria maltratado. Pela frente do rancho, os vultos negros dos cupins, das lobeiras, das moitas de sarandis eram ferreiros arcados nas forjas fabricando enxadas, as faíscas dos caga-fogos espirrando a torto e a direito, no escuro da noite. (...) Os ouvidos de Piano tiniam como se ele estivesse com dieta de quinino, mas eram as bigornas malhando. Faziam enxadas e mais enxadas. As faíscas espirrando do ferro em brasa. Muitos ferreiros, muitos Homeros martelando milhares de enxadas. Enxadas boas, de duas libras, de duas libras e meia e até de três libras.
Bernardo Élis. A enxada. In: Veranico de janeiro.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1979, p. 107-8.
Nesse trecho do conto A enxada, é narrada a luta de Supriano (Piano), um trabalhador do campo, espoliado, à procura de uma enxada para plantar arroz nas terras de seu patrão. No delírio final, Piano, ameaçado de morte pelo patrão caso não fizesse o serviço no tempo determinado, via acabar o prazo fixado sem que tivesse conseguido a enxada. Com base nessas informações e no fragmento de texto apresentado, julgue o item a seguir.
As imagens poéticas delirantes presentes na narrativa demonstram que o conto está afastado da realidade concreta de um trabalhador rural espoliado.