Texto I - itens de 1 a 12
A idéia para uma crônica me vem sempre como uma
experiência de alegria, mesmo que o assunto seja triste. Ela
aparece repentinamente, nos momentos mais inesperados,
como a visão de uma imagem. O que tento fazer é
simplesmente pintar com palavras a cena que se configurou
na minha imaginação.
Sou psicanalista. Meu trabalho se baseia na escuta.
Cada cliente fala e, ao fazer isso, me permite andar nas
paisagens da sua alma. Ao escrever uma crônica, faço o
contrário: sou eu que ofereço as paisagens da minha alma aos
olhos dos meus leitores. E eles, sem o saber, são os meus
psicanalistas.
O escritor não é alguém que vê coisas que ninguém
mais vê. O que ele faz é simplesmente iluminar com seus
olhos aquilo que todos vêem sem se dar conta disso. E o que
se espera é que as pessoas tenham aquela experiência a que
os filósofos Zen dão o nome de satori: a abertura de um
terceiro olho, para que o mundo já conhecido seja de novo
conhecido como nunca o foi.
Rubem Alves. O retorno e o terno. Campinas: Papirus, 1997.
Julgue os itens seguintes, relativos às idéias contidas no texto I.
Depois de escrito o texto, há uma inversão de papéis: são os clientes do cronista que se transformam em psicanalistas.