Não aconselho envelhecer
Aos moços dou um conselho: não fiquem velhos. Verdade que as opções são poucas – ou morrer, ou lutar contra a velhice.
E morrer não seria opção, mas entrega; e a luta? Bem, a luta resulta sempre numa batalha perdida e inglória.
Entre os processos cruéis da natureza, é a velhice o mais cruel. Implacável, insidiosa, ataca por todos os lados, abre a porta
a todas as moléstias mortais. Pensando bem, é uma espécie de HIV a longo prazo. Te ataca o coração, o pulmão, todas as demais
vísceras – a tripa, o fígado, o que nos abatedouros se chama o arrasto. E mais a fiação arterial e venosa, e a coluna! E não falei
na atividade cerebral. E também esqueci os ossos, a infame osteoporose, que te rói os ossos pelo tutano, deixando-os como
frágeis cascas de ovos. E então basta um pequeno escorregão na banheira para deixar um fêmur fraturado.
Os moços compadecidos, os quarentões assustados e os próprios velhos, apelando para tudo, inventaram ultimamente
essas bobagens de “terceira idade”, clubes e associações que trabalham contra o isolamento e as tristezas da velhice. Mas não
se iluda, velho, meu amigo e colega. Ninguém está acreditando naquilo. Você já viu na TV um quadro de propaganda dessa falsa
recuperação de terceira idade? Um velho e uma velha, vestidos à moda dos anos trinta, tentando dançar um tango argentino?
É patético, embora a maioria dos moços apenas o considere docemente ridículo.
Diz-se que já se consegue muito na luta contra a velhice. Ginástica, dieta, malhação, corrida etc. Cirurgia plástica. Ah, já pensaram
no tormento de uma bela mulher, atriz, dama do soçaite, cortesã, que viva da e para a sua beleza, ao descobrir as primeiras rugas, a
flacidez do mento, daquela sutil rede de outras pequenas rugas que rodeiam os lábios? O Dr. Pitanguy opera e os seus colegas de mérito
variável também operam. Mas, por mais famosos, competentes e mágicos que sejam os cirurgiões plásticos, só fazem mágicas, não
fazem milagres. Esticam a pele sobre os músculos flácidos, fazem um peeling, que é uma espécie de raladura na cútis, fica lindo a
princípio, mas, como toda mágica, não dura muito. E aí têm que começar tudo outra vez, as cicatrizes já não se escondem tão bem
atrás das orelhas ou no couro cabeludo que, aparado, vai encurtando, deixando as pacientes com testas enormes, quase uma calvície.
E nem falei em calvície que, mercê de Deus, ataca mais os homens que as mulheres!
Você contempla no espelho, vê as rugas do seu rosto, do seu pescoço, como se olhasse uma máscara que se desfaz. Vê bem, sabe
como está velho, embora não sinta que está velho. Sua alma, seus sentimentos, sua cabeça, nada disso confirma a palavra ou a imagem
do espelho. Mas os outros só veem de você o que o espelho vê.
E ao par disso as cãs, quer dizer, os cabelos brancos? Bem, os cabelos, pintam-se. Mas vocês já descobriram que, por mais
excelentes sejam o cabeleireiro e as tinturas, o cabelo pintado fica sempre gritantemente diverso do natural? Pensei sobre isso
e acabei descobrindo: o cabelo nosso, a natureza lhe dá cor de fio em fio, cada fio na sua tonalidade, uns mais claros, outros
mais escuros: o conjunto toma esse colorido inimitável, que profissional nenhum pode obter, já que lhe é impossível tingir fio
por fio. E, daí, essas senhoras de comas tão louras, tão ruivas, tão castanhas e negras, não iludirem nunca, darem mesmo a
impressão de que usam perucas.
E, no final de tudo, vem o envelhecimento da cabeça, da inteligência, das ideias, da alma – da chamada psiquê. O velho
tenta se equiparar às audácias dos jovens, até mesmo excedê-las – mas a si próprio não se convence. Sabe que as suas ideias
são as do seu tempo, fruto do que leu, viu e acumulou; e isso pode ser camuflado, mas não pode ser modificado. Dizem que as
células cerebrais não se renovam, como as demais células do corpo – será verdade? Até mesmo as ideias dos gênios mortos
envelhecem; e diante das ideias de um Nietzsche, de um Freud, tem que se dar o desconto do tempo e das mudanças. Contudo,
o pior mesmo é quando você, com honesta sinceridade, lamenta diante de alguém os estragos que lhe traz a velhice, e isso
alguém protesta com veemência: “Eu queria, quando chegar à sua idade, ter essa sua lucidez!”
Lucidez? O que é que eu esperava? Que você já estivesse caduco?
(QUEIROZ, Raquel (1995) Não aconselho envelhecer. In Falso mar, falso mundo. São Paulo: Arx, 2002.)
Diz-se anglicismo da introdução de vocábulos ou expressões advindos da língua inglesa à língua portuguesa, tendo sua grafia e pronúncia alteradas ou não. Um exemplo desse fenômeno se dá sublinhado no trecho: