REDES SOCIAIS
Antissocial
Por Ruy Castro, em 22/05/20
No mínimo, três ou quatro por dia. São os convites eletrônicos que recebo para me
tornar “amigo” de fulano ou para “fazer parte de sua rede profissional”. São convites amáveis,
endereçados a mim pelo primeiro nome. Mas, apesar do tratamento personalizado, têm um ar
de mensagem disparada a 100 ou 200 pessoas ao mesmo tempo. Sempre que recebo esses
convites, embatuco. Não tenho Facebook, nem sei como funciona, e as únicas redes profissionais
a que pertenço são as empresas a que presto serviços como escritor ou jornalista. Não sei, por
exemplo, qual é a “rede profissional” de um querido amigo que, aos 70 anos, nunca teve uma
carteira de trabalho assinada, nem acordou como assalariado um único dia em sua vida – e ele
me convidou a me juntar à sua “rede”.
Como não sei para que servem essas redes, também não sei o que responder e, pior,
temo que tais mensagens sejam pegadinhas marotas contendo vírus. Assim, ou as apago ou
deixo que morram de velhice na lista de mensagens. O problema é que, com isso, posso estar
passando por esnobe ou antissocial para quem se deu ao trabalho de me convidar a ser seu
“amigo” ou juntar-me à sua “rede”. O ridículo é que os que me convidam a tornar-me “amigo”
deles já são meus amigos. Têm meu telefone, sabem onde moro, já saímos juntos para
pândegas, discutimos futebol, fomos até sócios no passado e, se calhar, um tomou a namorada
do outro e vice-versa. Então, por que tal formalismo engessado?
Acredito que os programadores dessas maravilhas eletrônicas tenham pouca prática de
vida real. Por serem muito jovens e já terem nascido com um mouse na mão, talvez não saibam
que as relações humanas podem se formar a partir de um encontro casual, um aperto de mão,
um brilho no olhar.
Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed695_antissocial Acesso em 22 abr. 20
I. A expressão “maravilhas eletrônicas” (linha 18) é uma referência a redes sociais.
II. O pronome “isso” (linha 12) retoma e resume as informações expressas nas orações anteriores.
III. O emprego de “assim” (linha 11) antecipa que a informação seguinte contradiz a informação anteriormente formulada.
IV. Alteram-se a coerência e a coesão do texto se substituirmos “então” (linha 17) por “entrementes”.
V. “Apesar do” (linha 3) assinala uma discordância por meio da qual o autor introduz uma informação nova.
Está correto o que se afirma em: