Esquecimento e negligência na ciência
Com a enxaqueca eu fui obrigado a fazer buscas em uma literatura médica antiga, esquecida — uma literatura que a maioria dos meus colegas considerava desbancada ou obsoleta. E me vi em posição semelhante com a síndrome de Tourette. Meu interesse por essa condição surgiu em 1969, quando consegui “despertar” vários pacientes pós-encefalíticos com levodopa e vi quantos deles passaram rapidamente de estados imóveis semelhantes ao transe para uma breve “normalidade” e então chegaram ao extremo oposto: estados violentamente hipercinéticos, cheios de tiques, muito semelhantes à quase mítica “síndrome de Tourette”. Digo “quase mítica” porque, nos anos 1960, não se falava muito sobre essa doença; ela era considerada raríssima e possivelmente factícia. Eu só ouvira falar vagamente sobre ela.
De fato, em 1969, quando comecei a pensar sobre o assunto, porque meus pacientes estavam se tornando palpavelmente touréticos, tive dificuldade para encontrar referências atuais e precisei, mais uma vez, recorrer à literatura do século anterior: os artigos originais de Gilles de la Tourette escritos em 1885 e 1886, além de dezenas de relatos que se seguiram. Aquela foi uma era de descrições esplêndidas, a maioria em francês, das variedades de comportamento de tique, e culminou no livro Les Tics et leur traitement, publicado em 1902 por Henri Meige e E. Feindel. Contudo, entre 1907, quando essa obra foi traduzida para o inglês, e 1970, a síndrome parecia ter quase desaparecido.
Por quê? Devemos nos perguntar se a causa dessa negligência não seriam as pressões crescentes no começo do novo século para que se procurasse explicar os fenômenos científicos, deixando para trás o tempo em que apenas descrevê-los já era suficiente. E a síndrome de Tourette era singularmente difícil de explicar. Suas formas mais complexas podiam expressar-se não só como movimentos e ruídos convulsivos, mas também como tiques, compulsões, obsessões e tendências a fazer piadas e trocadilhos, a brincar com fronteiras, fazer provocações sociais e ter fantasias elaboradas. Houve tentativas de explicar a síndrome em termos psicanalíticos, mas apesar de lançarem alguma luz sobre alguns dos fenômenos, elas não podiam explicar outros; estava claro que havia também componentes orgânicos. Em 1960, a descoberta de que o haloperidol, uma droga que bloqueia os efeitos da dopamina, podia extinguir muitos dos fenômenos da síndrome de Tourette gerou a hipótese muito mais tratável de que se estava lidando com uma doença essencialmente química, causada por um excesso do neurotransmissor dopamina (ou uma sensibilidade excessiva a ela).
(SACKS, de Oliver. O Rio da Consciência, Companhia das Letras, 2017).
“‘Por quê’? Devemos nos perguntar se a causa dessa negligência não seriam as pressões crescentes no começo do novo século”. Assinale a alternativa que, como o termo destacado, está corretamente grafado, de acordo com o contexto.