O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Saudade do médico da família
Quando eu era criança, havia um médico para tudo e
para todos, que minha mãe chamava quando eu tinha
febre ou quando meu pai sentiu as primeiras dores na
vesícula. Era o clínico geral, que ainda existe e funciona.
Mas, hoje em dia, vivo numa teia de especialidades. A
medicina avançou de forma extraordinária. Hoje existe
um especialista para cada pedaço do corpo humano. O
coração tem um. O rim, outro. O pulmão, outro. O sono,
a tireoide, a pele, o intestino, o humor, a memória, a dor
de cabeça. Cada médico mergulha profundamente no
seu território. E isso, sem dúvida, salvou vidas. Quanto
mais conhecimento, mais precisão. Quanto mais
precisão, mais chances de cura. Mas, em algum ponto
do caminho, algo se perdeu.
Antigamente existia uma figura quase mítica: o médico
da família. Ele conhecia todos da casa. Sabia quem era
alérgico, quem tinha pressão alta, quem era dramático,
quem exagerava nos sintomas e quem só procurava
ajuda quando já estava quase batendo as botas. Ele
conhecia a história inteira. Não apenas o órgão.
Hoje o paciente virou um quebra-cabeças distribuído em
vários consultórios. Você vai ao cardiologista, que pede
exames do coração. Ao endocrinologista, que pede
exames hormonais. Ou ao gastroenterologista, que
investiga o estômago. O neurologista quer uma
ressonância.
O ortopedista pede outra coisa. Cada especialista faz
seu trabalho com competência. Mas raramente
conversam entre si. E o paciente vira uma espécie de
coordenador involuntário da própria saúde. Sai de um
consultório com uma receita. Vai a outro e recebe mais
um remédio. Depois outro. E mais outro. Em pouco
tempo, a mesa de cabeceira parece uma pequena
farmácia. O curioso é que, às vezes, um medicamento
anula o outro. Ou pior: os dois não deveriam ser
tomados juntos.
Quem tem de perceber isso? O paciente, que não
estudou medicina? Muitas vezes, o médico pergunta:
"Você toma alguma coisa?". A resposta vem meio vaga:
Acho que sim...". São nomes difíceis, horários diferentes,
recomendações complexas. E então surge uma nostalgia
inesperada: a saudade daquele médico antigo que
sentava, escutava, olhava o paciente inteiro e dizia:
"Vamos organizar isso". Ele não sabia tudo, claro. Mas
sabia algo fundamental: como juntar as peças.
Hoje a medicina sabe cada vez mais sobre cada parte do
corpo. E isso é admirável, embora muitas vezes o
paciente seja atirado que nem uma bola de
pingue-pongue de um especialista para outro. Talvez
esteja faltando alguém que olhe para o todo. Porque o
ser humano não é uma coleção de órgãos
independentes. Muito menos, um conjunto de sintomas.
É uma vida. E, no meio de tantos especialistas
brilhantes, talvez o verdadeiro luxo do futuro seja
justamente aquele profissional capaz de fazer algo que
parece simples, mas é raríssimo: olhar o paciente inteiro.
https://veja.abril.com.br/coluna/walcyr-carrasco/saudade-do-medico-dafamilia/
I. O narrador tem nostalgia de um modelo de atendimento em que o médico acompanhava o paciente de forma global.
II. A saudade expressa pelo autor relaciona-se diretamente ao período em que a medicina ainda não dispunha de avanços tecnológicos.
III. O texto afirma que há insatisfação dos pacientes com o excesso de exames solicitados pelos especialistas.
IV. Atualmente, em razão da falta de informação, muitos pacientes enfrentam dificuldades para acessar diferentes especialidades médicas.
Após análise, identifique a alternativa que apresenta apenas as proposições CORRETAS.