Magna Concursos
2876563 Ano: 2022
Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Rosário Limeira-MG
Provas:

As cruéis mitocôndrias Tem coisa que a gente aprende na escola e não entende bem pra que aquilo vai servir, se é que vai servir um dia. [...]

O que nunca me entrou na cabeça foi a importância de aprender o nome de tantos protozoários, bactérias, fungos, vírus e outros causadores de doenças. Na época eu estava curtindo meu primeiro amor platônico e só queria aprender a explicação pro meu coração acelerado e minha dor-de-cotovelo. A professora de ciências não passava nem perto de resolver esse problema. [...]

Quase no final da adolescência, tive a brilhante ideia de montar uma banda de rock chamada Giardia Lamblia e seus Vacúolos Contráteis. Maravilha: eu tinha descoberto finalmente a utilidade das aulas de ciências. Era um nome engraçado e de sonoridade moderna. [...]

Acabei entrando pra faculdade de jornalismo e foi ali que eu descobri mais uma utilidade pras tais aulas de ciências. Um dia, eu e dois colegas, cada um mais gozador do que o outro, fomos ao Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, e a escadaria do museu principal estava em reforma. Os visitantes tinham que recorrer a uma escadinha de madeira, bem capenga, num canto escuro.

Quando a gente estava descendo pra ir embora, notamos um garotinho de uns oito anos olhando praquela escada e morrendo de medo de subir. Nessa hora um dos meus amigos, o Mauro, resolveu sacanear o menino:

– Se eu fosse você eu não subia não.

– Por quê? – o menininho até tremia.

– Lá em cima tá cheio de mitocôndrias!

– Coitado do menino. Arregalou uns olhos desse tamanho, engoliu seco, não sabia o que fazer.

– E isso morde? – ele ainda teve voz pra perguntar. E o Mauro – até hoje não sei ele conseguiu lembrar dessa aula tantos anos depois – teve a crueldade de responder:

– Morder não morde. Mas sintetiza ATP.

Pronto: o menino saiu em disparada pela praça de Ouro Preto, berrando “mamãe, mamãe!”.

Só muitos anos depois, na aula de ciências, o pobre do menino deve ter percebido toda a sacanagem daquele dia.

Até então, aposto que ele teve mil pesadelos, com as cruéis mitocôndrias sintetizando todos os ATPs de seu cérebro.

(CUNHA, Leo. As cruéis mitocôndrias. In: CUNHA, Leo. Manual de

desculpas esfarrapadas. São Paulo: FTD, 2004, pp. 17-19.)

Sobre alguns elementos característicos da tipologia e do gênero do texto, analise, considerando o contexto, as seguintes afirmativas.

I. O conflito gerador dessa história é o fato de o narrador não conseguir compreender o motivo de se ter que aprender, na escola, o nome de tantas coisas aparentemente inúteis para a vida. Ao desenvolver a história, ele explica, porém, que acabou usando um desses nomes, muito tempo depois, para amedrontar um garotinho.

II. O narrador, que é um dos personagens da história, utiliza uma linguagem típica do gênero crônica, isto é, simples e coloquial, próxima da oralidade, mas sem desvios de concordância. Além disso, a partir do segundo parágrafo, os fatos são organizados numa sequência cronológica, o que delimita com precisão o desenvolvimento dos acontecimentos, o clímax e o desfecho do enredo.

III. O travessão foi usado como recurso para ceder espaço a voz dos personagens da história, caracterizando a presença do discurso direto. Por isso, no trecho “Pronto: o menino saiu em disparada pela praça de Ouro Preto, berrando ‘mamãe, mamãe!’”, ainda que a voz do personagem tenha sido mercada pelo uso das aspas, o narrador não cede espaço diretamente para a voz do personagem, o que caracteriza a presença do discurso indireto.

Está correto o que se afirma em

 

Provas

Questão presente nas seguintes provas

Professor - História

40 Questões