Quando eu era soldado, o terror do quartel era o vice-comandante, o Major Eufrásio. Era um homem de meia-altura, atarracado, braços curtos, cara quadrada, de nariz e óculos enormes. Não sorria nunca. Mais que isso, estava sempre de cara amarrada, como se temesse punhalada pelas costas. Não perdoava nada, vivia vasculhando as nossas faltas, mandava prender os subordinados por causa de um botão na túnica ou de uma perneira mal engraxada. Nós lhe votávamos todos um santo ódio, sobretudo porque o próprio comandante era a mais civil das criaturas e poderia dirigir sem irrisão um colégio de meninas. O contraste entre os dois chefes supremos serviria para levar-nos ao eterno pensamento sobre a diversidade dos seres humanos — mas não pensávamos naquela época. Reagíamos, condicionados pouco a pouco, ao estímulo de ordinário marche, à esquerda, à direita, alto, fórmulas que nos poupam o incômodo exercício do pensamento. E cultivávamos o medo e a raiva: sobretudo quando o Major Eufrásio, de cima de um cavalo, virava o próprio monumento equestre do inimigo da humanidade. [...]
Agora o leitor faça transcorrer vinte anos. Estou na companhia de amigos em um bar na cidade quando sinto, não propriamente medo, mas uma vaga sensação de mal-estar, ao ver na mesa ao lado o terrível do Eufrásio. Tinha cabelos escassos e brancos, mas era o mesmo homem robusto, feio e atarracado. O major bebia sozinho o seu uísque. Estava entre nós alguém que o conhecia dos tempos da Escola Militar: palavra vai, palavra vem, o antigo colega e eu fomos convidados para beber um rápido com o major. A situação me empolgava. Afinal, vinte anos depois ia eu conhecer de perto o fero e intransponível major. O ódio antigo se transformou instantaneamente em curiosidade humana: como seria a fera por dentro? A ideia de que o major fosse a favor da bomba atômica causou-me alvoroço. Seria um fim de carreira em harmonia com o princípio.
Contou-me que se reformara há pouco tempo no posto de general e gozava o ócio depois de tantos anos de trabalho. Puxando a conversa para onde me interessava, disse-lhe do terror que ele me inspirava no meu tempo de soldado. O general pôs-se a sorrir e me falou que, no fundo, sempre fora um sentimental.
Cinco minutos depois, estava a narrar-nos uma história de amor. Ainda o coronel, pouco antes de reformar-se, tivera em Porto Alegre a grande paixão de sua existência. Era a mulher mais bela do mundo, de incomparáveis olhos azuis e francesa. E que voz suave! que delicadeza de gestos! que educação! que finura!
Era casada e muito bem casada. Não, jamais pudéssemos pensar que ele fosse perturbar a felicidade do casal. Frequentou-lhes a casa durante quatro anos em devoção ardente mas coberta pela máscara serena de uma vontade de ferro. Nunca deixou transparecer o que lhe ia no coração! Nunca! A não ser uma vez. Foi quando o casal lhe ofereceu uma grande festa de despedida. Os olhos da fera estavam umedecidos. Ela estava mais deslumbrante do que nunca. Ele, o homenageado, à véspera da partida, às vezes tinha de esconder-se pelos cantos para enxugar com o lenço a emoção. Foi uma coisa indescritível, que só não o levou ao desespero porque de há muito decidira pela resignação.
Houve só um momento de fraqueza. Um só! Foi quando os dois se encontraram sozinhos na sacada, sob um céu maravilhosamente estrelado. Ela confessou a saudade que ele deixava.
– Aí, meu caro amigo, este velho coração não suportou mais. Segurei de leve as mãos dela e disse, em francês: Madame, je vous aime.1
O general tirou o lenço, levantou os óculos, limpou os olhos.
– Ela me apertou a mão com força e me disse... Que coisa linda ela me disse! que simplicidade! que dignidade!... Ela me disse: Merci, mon colonel! 2
1 Madame, je vous aime.: Senhora, eu a amo.
2 Merci, mon colonel!: Obrigada, meu coronel!
(Paulo Mendes Campos. Balé do pato, 2012.)
O termo que qualifica o substantivo na expressão “devoção ardente” (5º parágrafo) tem sentido oposto ao termo que qualifica o substantivo em: