Eu amo a noite
1 Eu amo a noite quando deixa os montes,
2 Bela, mas bela de um horror sublime,
3 E sobre a face dos desertos quedos
4 Seu régio selo de mistério imprime.
5 Amo o sinistro ramalhar dos cedros
6 Ao rijo sopro da tormenta infrene,
7 Quando antevendo a inevitável queda
8 Mandam aos ermos um adeus solene.
9 Amo os penedos escarpados onde
10 Desprende o abutre o prolongado pio,
11 E a voz medonha do caimã disforme
12 Por entre os juncos de lodoso rio.
13 Amo os lampejos verde-azuis, funéreos,
14 Que às horas mortas erguem-se da terra
15 E enchem de susto o viajante incauto
16 No cemitério de sombria serra.
17 Amo o silêncio, os areais extensos,
18 Os vastos brejos e os sertões sem dia,
19 Porque meu seio como a sombra é tristeB,
20 Porque minh'alma é de ilusões vazia.
21 Amo o furor do vendaval que ruge,
22 Das asas densas sacudindo o estrago,
23 Silvos de balas, turbilhões de fumo,
24 Tribos de corvos em sangrento lago.
25 Tenho um deserto de amarguras n'alma,
26 Mas nunca a fronte curvarei por terra!...
27 Ah! tremo às vezes ao tocar nas chagas,
28 Nas vivas chagas que meu peito encerra!
Autor: Fagundes Varela (adaptado)
Assinale a alternativa em que o termo sublinhado pertence à mesma classe gramatical de extensos (l.17).