CIRCO. ONDE O IMPOSSÍVEL ACONTECE.
O circo é uma tenda mágica. Ali acontecem miragens e milagres.
Os princípios da física já não funcionam, por que trapezistas e malabaristas desafiam a lei da gravidade. Também não funcionam mais as leis da lógica: uma mulher pode ser serrada em duas ou três partes e continuar viva. Igualmente, também já não existe mais naquele espaço de encantamento a separação entre o que é humano e animal, pois os elefantes, cães, gatos, e macacos atuam como gente num diálogo perfeito com nossas emoções.
As pessoas vão ao circo para ver que o impossível é possível. Quando a gente desespera da chatura do cotidiano, dá uma desculpa de que os filhos é que gostam, e nos enfiamos todos sob a vasta lona miraculosa onde outros encenam aos nossos olhos que objetos, corpos e animais podem ir além de seus limites descrevendo mirabolantes fantasias no espaço.
No espaço do circo as mãos sabem desembrulhar pombos e surpresas coloridas, e o corpo, perdendo a sua rigidez, vira um conjunto de molas, que pula, retorce-se, contorce-se e ao final recupera a elegância original. Eu diria, que o circo exerce um outro tipo de fascínio. Se a primeira idéia, como disse até agora, é a de que ali, naquela tenda mítica, tudo é possível, há aí um outro fator de sedução. É que o circo é móvel. Não está enraizado, fincado, plantado, imobilizado no chão. Aquele ar de balão prestes a levantar vôo é significativo. É que ele levanta vôo mesmo. Um dia o circo se vai, o lugar fica vazio, a imaginação ociosa, até que outro circo venha anunciando pelas ruas da cidade nova maravilha.
E este deslocar-se adiciona no espectador comum – esse que todo dia sai para trabalhar e volta regularmente para casa – a sensação de que a vida de circo é fabulosa, que a vida do artista é esse deslocar-se constante pelo mundo da fantasia.
Por isto, as troupes de saltimbancos ocupam há muito o imaginário das pessoas. Acrobatas, colombinas, pierrôs e arlequins; além de poderem fazer tudo o que fazem, de uma hora para outra, evaporam-se no ar, vão para outras paragens, como se não tivessem nenhum vínculo com a burocracia da cidade.
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O circo – é quando o impossível acontece. E como o impossível nunca cessa, o circo não cessará jamais de existir.
Affonso Romano de Sant’Anna. Diálogo Médico, São Paulo: Laboratórios Roche, 1990, n. 3, p. 37.
Dentre as palavras abaixo, a única que é formada por derivação parassintética é: