Texto
Ao longo dos últimos anos, vários jornais foram registrando notícias acerca da morte de crianças e de adolescentes no Brasil. Eram mortas a tiro, deixadas nas praças e ruas das grandes cidades, Rio, São Paulo, Recife, Salvador.
Seus corpos, a maioria é negra, ficavam expostos à curiosidade pública por algum tempo, até que a polícia aparecia. Os mortos não tinham nomes, nem história. José, Henrique, Maria certamente não seriam. Esses seres nasceram sem registro na nossa biografia. Em algum momento, foram excluídos e não avisaram aos demais. Entraram no Brasil como sobras de gente e passaram a existir por conta própria.
A morte dessas crianças não tinha autoria. Era como se de repente algo tivesse acontecido para interromper de forma brutal uma vida, sem nome, sem cor, sem valor, sem resistência, identidade. Afinal, era apenas um menor, um pivete, um animalzinho que corria pelas ruas da cidade, como uma ameaça desvairada. Matar, acabar com essas vidas perigosas, silenciar essas vozes sem sentido, imobilizar esses braços frágeis, essas perninhas sem rumo certo, essa infância sem ternura, essa miséria insuportável, esse abandono sem limites... era afinal e quem sabe um ato de misericórdia.
Amados teriam sido alguma vez? Alimentados duas vezes por dia teriam sido? Um lugar para dormir teria havido? Alguns amigos, ou um que seja, teriam tido? Algum registro que ficasse e que pudesse constar da biografia de algum ser humano ou por esse nome conhecido? Seguramente não.
Chegamos a esse ponto. Essas crianças são mortas porque suas vidas não têm sentido. Quando a vida não tem sentido, a morte é a conseqüência natural, ou apenas um acidente de rotina.
Quando em um país, em uma sociedade organizada, institucionalizada, batizada, a existência e a vida de crianças perdem o sentido, é de se perguntar em que mundo estamos vivendo. E essa é a pergunta que a morte das crianças pobres e negras brasileiras faz a todos nós, governo e sociedade.
Herbert de Souza. Limite do escândalo. In:
Jornal do Brasil, 23/9/1990, p. 5 (com adaptações).
A partir da análise das construções abaixo, extraídas do texto, assinale a opção correta.
I “não têm sentido”
II “não tem sentido”
III “a existência e a vida”
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