Numa esquina da avenida mais movimentada, às sete da noite, o sinal fica verde[A], entretanto a carroça do papeleiro não se mexe. Os motoristas começam a buzinar. O papeleiro agita as rédeas, faz um som esquisito com a boca[B], e nada adianta. O cavalo empacou[C]. Os motoristas, já numa fila de incontáveis faróis e buzinas, com o que lhes resta de forças depois de mais um dia cansativo e estressante em seus escritórios e repartições, gritam, xingam, amaldiçoam. O papeleiro, por sua vez, com o que lhe resta de fôlego depois de mais um dia de sol pelas ruas da cidade, os braços fracos de abrir lixeiras desde as seis da manhã[D], desce da carroça empunhando um cabo de vassoura e grita, bate, espanca. E o cavalo, com o que lhe resta de si depois de mais um dia que ele nem sabe que passou, com a fome de hoje somada à de ontem e anteontem, que o deixam lerdo e confuso, ajoelha-se, de olhos fechados, como quem reza para morrer[E].
BRASILIENSE, Leonardo. Solidariedade. Corpos sem pressa. Casa Verde. 2000. Disponível em: <http://www.leonardobrasiliense.com.br>.
Acesso em: 9 abr. 2016.
Considerando-se os recursos estilísticos do texto, está correto o que se afirma sobre o fragmento transcrito em