"Frankenstein, ou O Prometeu Moderno"
Em 1ºde janeiro de 1818, a pequena editora londrina Lackington, Hughes, Harding, Mavor & Jones publicou, em três volumes, um curioso romance chamado "Frankenstein, ou O Prometeu Moderno", sobre um estudante de Medicina que resolve brincar de Deus e restituir vida a uma criatura de fabricação própria, o que resulta numa série de horrores inimagináveis. Ninguém sabia à época, já que a obra foi publicada anonimamente, mas sua autora era uma jovem de 20 anos chamada Mary Shelley.
No século 19, mulheres escritoras ainda estavam associadas a romances água com açúcar. Por isso, muitas autoras optavam por publicar histórias que fugiam a este padrão anonimamente, ou com pseudônimos masculinos, para evitar que fossem um fracasso de vendas. O mesmo aconteceu com a primeira edição de "O Morro dos Ventos Uivantes", que Emily Brontê foi obrigada a assinar como homem, "Ellis Bell".
A história de como nasceu "Frankenstein", numa inocente brincadeira no verão de 1816, envolvendo a criação de contos de terror entre quatro jovens escritores ou simpatizantes da literatura (Mary, seu futuro marido Percy Shelley, o poeta maldito Lord Byron e seu médico, John Polidori), já foi fartamente recontada e dispensa maiores recapitulações. Para quem não conhece, existem nada menos de três filmes sobre o episódio: "Gothic" (1986), de Ken Russell; "Primeiro Verão de Amor / Haunted Summer", de Ivan Passe r, e "A Verdadeira História de Frankenstein / Remando ai Viento" (ambos de 1988), dirigido por Gonzalo Suárez, onde a autora foi interpretada, respectivamente, por Natasha Richardson, Alice Krige e Lizzy Mclnnerny.
Fato é que ninguém podia esperar que uma novata como Mary fosse superar autores experientes como Lord Byron e Percy Shelley (que, a bem da verdade, nada escreveram naquele lendário encontro), e que "Frankenstein" se tornaria um dos grandes clássicos da literatura de horror.
Nem o livro foi a primeira história de ficção científica já escrita, nem Mary Shelley foi a primeira escritora de horror, como atestam alguns textos que a gente lê por aí, mas tanto "Frankenstein" quanto Mary Shelley têm méritos inquestionáveis e não precisam cobrar qualquer pioneirismo para tal.
Para comprovar, logo começaram a aparecer bem-sucedidas versões para o teatro, onde o drama era encenado usando-se as mais diversas liberdades poéticas. Uma das mais famosas adaptações foi "Presumption!; or the Fate of Frankenstein", escrita pelo dramaturgo inglês Richard Brinsley Peake e encenada entre 1823 e 1827. Consta que a própria Mary Shelley viu a peça e aprovou as mudanças - entre elas, a criação de um assistente corcunda para o Dr. Frankenstein, chamado Fritz, que "espiava" e descrevia o processo de criação do monstro para a plateia - como seria muito difícil encenar o momento com os recursos da época, ele acontecia "fora do palco". Também foi Peake o autor de uma das falas mais famosas relacionadas à história, o "It lives!" exclamado pelo Dr. Frankenstein e nunca mencionado no livro (e que no cinema virou o famosíssimo "It's alive!"). Durante anos, a peça foi uma referência para todas as futuras adaptações de "Frankenstein", e não a obra original de Mary Shelley.
O sucesso nos palcos fez com que "Frankenstein" fosse republicado primeiro em 1823 - desta vez com a autoria de Mary Shelley creditada na capa -, e depois em 1831, numa versão revisada e radicalmente alterada por ela, que é o livro que todos conhecemos e que vem sendo republicado até hoje.
Autor: Felipe Guerra (texto adaptado).
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