A passagem da cultura oral para a impressa, no Ocidente, foi uma travessia gradual e trouxe grandes transformações para a humanidade. Lembremos que houve um universo sem a escrita que foi estruturado de uma maneira muito diferente. O homem dependia exclusivamente da memória individual.
No universo sem a escrita, a memória individual era a verdadeira guardiã de ritos, poesias, costumes e tradições de uma sociedade. A cultura era mantida, dessa maneira, por meio da transmissão, geralmente, em rituais e outros recursos que envolvessem memórias individuais.
Com a escrita, houve a grande mudança para a humanidade. A memória individual passou a ser transferida para suportes materiais exteriores a ela. Se as sociedades orais dependiam de memorizações e outros processos de manutenção das tradições, cultura e literatura, a escrita, de forma gradativa, vai operar em registros fora de uma memória individual. Nessa medida, para o bem e para o mal, as sociedades passam a ter outro tipo de comportamento em relação ao conhecimento.
Sabemos o quão a invenção da imprensa foi decisiva para a mobilidade e difusão dos conhecimentos. A imprensa significou um grande avanço de acessibilidade em relação à leitura, sob todos os pontos de vista. Fato consumado. Os livros nunca ficaram tão mais próximos dos possíveis leitores, apesar do grande índice de analfabetismo, principalmente antes do século XX.
Mas a grande revolução foi a Internet. Jamais a humanidade teve acesso a uma quantidade tão grande de informações. Os “tempos líquidos”, na feliz expressão de Bauman, materializaram-se a uma velocidade sem precedentes. Com isso foi criado um sistema de leitura mais rápido do que nunca.
Quando estamos na Internet, os conteúdos nos chegam de forma rápida e em fragmentos. A capacidade de fixação de tal tipo de leitura nos conduz a certa distração.
Nessa medida, mecanismos de memória e outros ficam comprometidos. Pesquisas mostram que a leitura digital não conduz as pessoas a pensar profundamente e, se não houver equilíbrio, cada vez mais estaremos sujeitos a pensar sem crítica e sem profundidade.
Ana Maria H. Baptista. Do impresso ao digital. In: Conhecimento
Prático Língua Portuguesa e Literatura, ano 8, ed. 83,
Editora Escala, 2020 (com adaptações).
Considerando os aspectos gramaticais do texto apresentado, julgue o item.
Embora não fosse gramaticalmente incorreto, o emprego do sinal indicativo de crase no vocábulo “a”, em “a certa distração”, alteraria os sentidos originais do texto.