... desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno
de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não
conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu
coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os
arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e
um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto.
Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se.
Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os
portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os
coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os
embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou
muito tempo.
LISPECTOR,Clarice.Amor. In: Todos os contos.Rio de Janeiro:Rocco, 2016, p. 150.