“Ontem, no pardieiro intitulado Teatro República, perante numerosa assistência composta exclusivamente de patrícios seus, o festejadíssimo poeta português, Sr. João de Barros, descobriu mais uma vez o Brasil. Dos portugueses que por cá têm vindo, desde o infausto ano de 1500 até hoje, o único que verdadeiramente não descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral. Por duas espécies de motivos digo eu que Cabral não descobriu o Brasil: por motivos históricos e pela significação moderna da locução ‘descobrir o Brasil’. Quanto aos motivos históricos, é sabido que Cabral foi no seu tempo um dos últimos a conhecer o Brasil. Antes dele cá haviam estado Diogo de Leppe, Solís, Yáñez Pinzón e outros que, infelizmente, não tiveram a iniciativa de tomar posse da nova terra para a coroa da França ou para a coroa da Espanha. Historicamente, Cabral não descobriu terra nenhuma por aqui; apenas apoderou-se de um território incluído entre os descobrimentos de Colombo e, positivamente, diretamente já descoberto por outros. Em virtude da significação moderna da locução ‘descobrir o Brasil’, também é evidente que Cabral não nos descobriu. Cabral, com efeito, depois de tomar posse do Brasil e de ter ido à Índia, voltou a Portugal, onde, depois de receber alguns prêmios, viveu e morreu tão obscuramente que, só devido a esforços de um brasileiro, se descobriu o seu túmulo, no século XX. De sorte que o Brasil pouco aproveitou ao navegador. Não é isso, pois, que se chama ‘descobrir o Brasil’, como se vai ver. Descobrir o Brasil é fazer como Malheiro Dias, que, depois de insultar-nos no seu livro ‘A mulata’ e de ter fugido para Portugal, para cá voltou anos depois, estabeleceu-se com fábrica de unguentos e pomadas, de sociedade com uma polaca sua amiga, e toca a levar vida regalada! Descobrir o Brasil é fazer como o Dr. João de Barros, que nos conta, a respeito da nossa terra, coisas de que nunca ouvimos falar. Ainda ontem nos dizia ele, com o seu sibilante sotaque alfacinha, que no Rio de Janeiro ‘a inteligência, o talento e o gênio tomam as mais fascinantes formas’. Ora aí está uma grande novidade para nós, porque a inteligência aqui é relativa, como em toda parte; o talento é raríssimo; quanto ao gênio, ainda está por aparecer”.
(O descobrimento do Brasil, por Antônio Torres, com adaptações).
Em síntese, pode-se afirmar que o autor baseia o seu argumento de que “Cabral não descobriu o Brasil” em razões fundamentalmente: