Oi, mãe, já terminando de almoçar?
Oh, meu filho, me dê um abraço. Ah, que bom...
Quando foi que você chegou?
Estou chegando agora, mãe.
Como foi de viagem?
Eu não estava viajando, mãe.
Você precisa tomar cuidado com essas viagens, as estradas estão muito perigosas.
Mas eu já disse, mãe, não estava viajando. Eu não viajo quase nunca. Faz anos que não viajo para lugar nenhum.
Agora, deixe a moça tirar o prato, os talheres, logo vem um pratinho para a senhora comer a sobremesa.
E o queijo?
Aqui também, não ia me esquecer de que a senhora gosta de comer doce com queijo.
Sempre gostei, desde menina. Quer saber uma coisa engraçada, meu filho?
Quero, mãe.
Hoje eu só me lembro bem de coisas daquele tempo velho. De outras, eu esqueço. Depois dos doces, um cafezinho, não é?
Claro. Aliás, trouxe também café, já o entreguei a D. Delza.
Café é bom, meu pai dizia. Café e outra coisa...
O que era mesmo?
Eu sei que outra coisa era, quer que eu diga?
Não.
Então não digo.
Já sei: azeite doce.
Isso mesmo. Sim, são coisas boas.
Você também gosta?
Aprendi a gostar com a senhora.
Quando meu pai morreu, eu era muito pequena.
Eu sei. Tinha seis anos.
Você tinha seis anos?
Não: a senhora.
Você se lembra?
Lembro a senhora dizendo isso.
Minha mãe também morreu.
Eu sei.
Quem lhe contou?
Mãe, minha avó morreu há mais de vinte anos.
Sua avó?
Minha avó, sim, sua mãe.
É verdade. Sua avó. Mas você está enganado, meu filho, ela morreu agora.
Agora?
Nestes dias.
Mãe...
ESPINHEIRA FILHO, Rui. Visita. O Sonho dos Anjos (contos reunidos e inéditos). Salvador-
Ba: Caramurê Publicações. 2014. p. 57-59. Adaptado.
Mesmo sem a presença do sujeito narrador, a coerência e a linearidade narrativa se desenvolvem por meio