A descoberta da surdez
A lembrança é clara, mesmo que tenham se passado 25 anos. No apartamento em que morávamos, havia um corredor em formato de “S”, pelo qual eu adorava correr. Numa tarde, lembro-me de encostar a cabeça na parede e chamar a minha mãe, gritando: “Mãe, tem um apito no meu ouvido”. É a memória mais antiga da minha surdez. Convivo com o tinnitus aureum desde criancinha — naquela época, jamais imaginávamos que era um sintoma de perda auditiva.
Não lembro minha idade exata quando comecei a frequentar otorrinolaringologistas. Tive muitas otites. Passei inúmeras tardes ensolaradas da minha infância deitada em cima da cama esperando que algum remédio fizesse efeito, com os ouvidos tampados com algodão. Toda ida à piscina acabava, invariavelmente, em dor de ouvido. Lembro-me de uma tia-avó que às vezes comentava com minha mãe e minha avó que desconfiava que eu não ouvia bem. As duas sempre retrucavam: “Imagina, que bobagem!”. Quando penso nessa tia, lembro-me do seu olhar intrigado toda vez que eu repetia a palavrinha mágica daqueles que não escutam direito: “Hã?”. Para ela, eu falava “Hã?” demais, mas, como eu tinha uma voz perfeita, ouvia muita coisa e conversava normalmente, era mais fácil pensar que eu era distraída.
Paula Pfeifer. Crônicas da surdez.
2.ª ed. São Paulo: Plexus Editora, 2020 (com adaptações).
Julgue o item seguinte, relativo às ideias e aos aspectos linguísticos do texto precedente.
A exclusão da vírgula empregada em ‘Imagina, que bobagem!’ (antepenúltimo período do segundo parágrafo) alteraria o sentido desse trecho e as relações sintáticas entre seus termos.