Motoristas solidários
Vivemos a civilização do automóvel, mas atrás do volante de um carro o homem se comporta como se ainda estivesse nas cavernas. Luta com seu semelhante pelo espaço na rua como se fosse o último dinossauro. Usa as mesmas táticas de intimidação, apenas buzinando em vez de rosnar ou rosnando em vez de morder.
O trânsito em qualquer cidade do mundo é um reflexo da vida competitiva que as pessoas levam, cada um dentro do seu próprio pequeno mundo de metal tentando levar vantagem sobre o outro, ou pelo menos tentando não se deixar intimidar.
Mas há uma exceção, uma pequena clareira de solidariedade na janela. É a porta que abre. Quando o carro ao lado emparelha com o da outra pessoa e alguém põe a cabeça para fora, o outro se prepara para o pior. Mas pode ter uma surpresa.
─ Porta aberta!
─ O quê?
O motorista custa a acreditar que não está sendo xingado. O inimigo está sinceramente preocupado com a possibilidade de a porta abrir e a outra pessoa sofrer algum acidente. A porta aberta determina uma espécie de trégua. Se por acaso o motorista não ouve o primeiro aviso “Olha a porta aberta!”, vão atrás, buzinando. É como se fosse um código de honra, um intervalo nas agressões cotidianas. E isso significa que, ao menos no trânsito, não voltamos totalmente ao estado primitivo e podemos, sim, ter esperanças na civilização.
(Luís Fernando Veríssimo. Informe do planeta azul e outras histórias. São Paulo: Boa Companhia, 2018. Adaptado)
Assinale a alternativa em que há palavra empregada com sentido figurado.