Magna Concursos
1222356 Ano: 2013
Disciplina: Português
Banca: EXATUS
Orgão: Câm. Ibiraçu-ES
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DO DIÁRIO DE CARLINHOS

Ronald Claver

1º A cabeça dói. As pessoas falam ao mesmo tempo. Quero sair. A noite começa além da porta. Se há lua, não sei. Lua é na beira do rio. Estrelas há. Sempre existem. Principalmente quando se viaja de madrugada para pescar, as estrelas invadem a boleia da camioneta e um luão clareia o fundo das águas. A lua na cidade fica nos postes. São pirilampos. Acendem aqui, apagam ali. Lanterna em mão de menino, balançando sempre.

2º Olho para as pessoas e não penso nada. Elas continuam falando, rindo. A festa continua. A noite continua além da porta. Continuo olhando para todos sem pensar. Aliás, não tenho muito o que pensar. De sonhar eu gosto. De noite, quando coloco a cabeça no Godofredo, meu travesseiro, me transformo. Vivo bicho, peão, padre, aviador, soldado, jogador de futebol. É sonho de nunca acabar.

3º Gosto de pensar pensamentos esquisito, estranhos e engraçados. E enquanto as pessoas falam, e a festa não termina, estou no zoológico. Sou um crocodilo e me alimento de borboletas amarelas. Meus muitos dentes são alvos e encavalados. Tenho uma cara dura, grande e feroz. Pescoço não tenho. Tenho é um rabão de quase metro e meio. Faço medo nas pessoas quando encaro a boca. Todos têm medo de mim, inclusive as borboletas amarelas.

4º Viver no zoológico é triste. E não quero ser triste. Crocodilo é bicho de rio grande, de comida farta, de gula sempre. Aqui a comida vem pouca e de hora marcada. Às vezes, o guardião se esquece da gente. O jeito é apelar para as borboletas. Logo eu que sou bicho caçador, ardiloso, maldoso. De comer até hipopótamo nos filmes de Tarzan, Aqui não passo de uma vitrina. Todo mundo diz: “Que bicho mais feio! Tem dente demais!” “Olha que bicho nojento, asqueroso!” “Esse aí logo vai virar sapato!” E outras bobagens mais.

5º Não. Não quero ser crocodilo de zoológico. Se aqui, ao menos, tivesse uma crocodila. E amor de crocodilo como será? Nunca imaginei.

6º Hoje vi Carol. Disse: “Olá, Carol”. Ela respondeu: “Olá”. E continuou no seu caminho. O coração pulando na boca, e Carol se perdendo na primeira esquina. Fiquei um tempo enorme ali, olhando para a esquina, como se a esquina fosse devolver Carol. Engoli as palavras que seriam de Carol e fiquem amuado. Será que a Carol é um sonho? Pior. Carol é sonho acordado. “Tudo é possível”, diz minha mãe. Mãe é mulher. Carol é mulher. Tudo igual. Minha mãe não conhece Carol, nem reparou no amor dos crocodilos. Carol e crocodilo são da mesma família. Parecem em tudo. Alheios a tudo. Ambos têm um jeito de me ignorar.

Assinale a alternativa em que o plural se faz da mesma forma que “peão”:

 

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