Leia o texto para responder às questões de números 03 a 05.
Venho percebendo que minha estafa não vem apenas do excesso de compromissos, mas do movimento de uma única parte do meu corpo: o dedo indicador que conduz a rolagem das postagens nas redes. Um único dedo promovendo a anarquia destrutiva dos sentidos. Em um minuto, sinto compaixão, e no outro, cobiça. Um minuto de informação, e no seguinte, espanto. Sentimentos fragmentados pelo vício em consumir tudo sem sentir o gosto.
Pílulas de sabedoria, edição de programas, pedaços de podcasts, frases soltas, conhecimento mastigado. Tudo muito prático, uma bandeja de aperitivos. A integralidade ruiu. A vida rarefeita vai passando pela janela do celular em rapidez supersônica, como as cenas do clássico “Koyaanisqatsi”, filme que há 40 anos já denunciava o nosso colapso diante da pressa.
Alta velocidade gera adrenalina, mas também desespero: em que momento surgirá o muro contra o qual nos chocaremos? O medo se mistura ao desejo de que esse muro exista mesmo e nos pare. Suplica-se por uma via de escape dessa ciranda frenética. De repente, a vontade é de não mais saber, não mais conhecer. Abandonar as redes seria uma opção de livramento, mas um suicídio metafórico: o sujeito desconectado será ainda considerado um ser vivo?
A impaciência tem sido um dos efeitos colaterais desse frenesi. Interrompemos a fala dos outros, amamos e odiamos por impulso e não conseguimos assistir a um vídeo até o fim. E assim, humilhados pela nossa própria inquietação, seguimos fazendo de conta que é possível nos tornarmos mais sábios e atualizados, apenas acelerando o dedo indicador, enquanto reduzimos a zero nossa concentração. Quantos livros você leu este ano?
Sem coragem para desembarcar desse trem-bala, mantenho meus perfis operantes, já que a tecnologia facilita a divulgação do meu trabalho. Mas contra o esgotamento da alma, só a nostalgia me ampara.
(Martha Medeiros. Fartura de estilhaços. https://oglobo.globo.com, 16.12.2023. Adaptado)
De acordo com informações presentes no texto, é correto afirmar que a autora