TEXTO 2
No fundo de uma caixinha
Cheguei da escola e vi a porta do quarto aberta, a porta do armário aberta, a gaveta aberta, e minha mãe sentada no chão, descalça, toda despenteada, com uma caixa fechada na mão. Dei um beijo nela e olhei para a caixa. A minha mãe abriu a caixa e tirou de dentro, bem lá do fundo, um envelope de papel pardo, velho e meio amassado.
- Que é que tem aí dentro, mãe?
- Nem lembro mais, minha filha. Vamos ver.
- Deve ser muita coisa, que o envelope está bem gordinho.
E era mesmo.Um monte de retratos. De repente eu vi um que era a coisa mais fofa que você puder imaginar. Uma menininha linda, de cabelo todo cacheado. Vestido claro cheio de fitas e rendas, segurando numa das mãos uma boneca de chapéu e na outra uma espécie de pneu de bicicleta soltinho, sem bicicleta, nem raio, nem pedal, sei lá, uma coisa parecida com um bambolê de metal.
- Ah, mãe, me dá essa bonequinha...
- Não é boneca, minha filha, é um retrato da vovó Beatriz.
- Minha bisavó Beatriz...
Fiquei olhando para o retrato e logo vi que não podia chamar de bisavó Beatriz aquela menina fofa com jeito de boneca. Não tinha cara nenhuma de bisavó, vê lá... Dava vontade de brincar com ela.
(Ana Maria Machado – O texto acima é um trecho adaptado da novela Bisa Bia, Bisa Bel, o volume 3
/da coleção Literatura em minha casa, publicada pela Editora Moderna, São Paulo, 2001.)
Na frase: [Deve ser muita coisa], [que o envelope está bem gordinho], há entre os trechos destacados, respectivamente, uma relação de