A partir do Texto I, abaixo, leia-o com atenção para responder à questão.
Texto I
O uso de Inteligência Artificial na educação é um problema, algo que se constata desde que o ChatGPT surgiu. Podemos discutir os prós e contras de seu uso em diferentes atividades – estou profundamente convencido de que os contras
superam largamente os prós em todos os ramos que exigem criatividade, incluída aí a pesquisa, mas entendo que é um
debate ainda em aberto. Parece óbvio, porém, que, no processo de formação, é importante que os estudantes desenvolvam
habilidades próprias. Caso se escorem na IA, perderão a capacidade até mesmo de avaliar aquilo que a IA lhes entrega.
Antes que alguém venha falar da calculadora eletrônica, cabe lembrar que uma equação matemática tem uma única resposta correta – ao contrário de um ensaio sobre o conceito de natureza humana em Kant ou de um poema sobre o
pôr do sol em Brasília. E, antes de passar para calculadora, os estudantes devem aprender a fazer contas.
Como muitos colegas, passei a aplicar provas em sala de aula, o que é o fim da picada, como alternativa a receber
montes de trabalhos feitos por IA. Mas há situações em que não é possível adotar este caminho. A pesquisa mais elaborada
e a redação pensada, que não ocorrem no intervalo de duas horas de uma prova, são competências importantes para formação de um estudante universitário.
Apesar de meus inúmeros alertas, neste semestre, na minha turma de graduação, mais da metade dos trabalhos finais foi feita por IA. Incluindo, aliás, trabalhos bastante ruins, que seriam reprovados ainda que a autoria fosse humana.
Alguns estudantes reconheceram o erro, outros espernearam. Cheguei a receber uma longa justificativa que basicamente
dizia que era impossível detectar o trabalho feito por IA. A justificativa, obviamente, também se mostrou redigida por IA.
(Na pós-graduação, felizmente, o problema apresentou uma dimensão bem menor.)
Estou usando o Pangram, um software de detecção de IA que se mostra muito confiável. Segundo vários testes realizados, sua taxa de falsos positivos é inferior a um em cada 10 mil textos, chegando virtualmente a zero em textos longos. A
taxa de falsos negativos é um pouco maior, mas ainda assim pequena, e não chega a ser um problema: é muito menos grave
deixar passar um aluno picareta do que punir injustamente um estudante honesto.
Eu o testei de várias maneiras, com resultados sempre corretos. Em relação ao trabalho dos alunos, houve um alinhamento quase perfeito entre minha percepção inicial e o resultado do software. A prova dos nove ainda está para ser
feita, com a arguição sobre o material suspeito, mas os resultados já são bastante sólidos.
O principal problema do Pangram é que é caro – para o volume da minha necessidade, preciso assinar um plano de
65 dólares mensais.
Aproveitei e apliquei a ferramenta aqui no Substack. Descobri o segredo daqueles que publicam textos muito longos, muito elaborados, aparentemente com muita pesquisa, inéditos, toda semana, às vezes com frequência ainda maior.
Tudo feito por IA.
Não vai rolar, é claro, mas a plataforma deveria incorporar o detector de IA e colocar um alerta. Não quero perder
meu tempo, muito menos pagar assinatura para ler algo que é produzido sinteticamente.
ADAPTADO. Luis Felipe Miguel - @lfmiguel - Professor de Ciência Política da Universidade de Brasília. Coodenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia
e Desigualdades (Demodê). Texto disponível em: https://substack.com/@lfmiguel/note/c-288532710?r=56xf9d
I. Ao afirmar que
, o autor mobiliza um pressuposto segundo o qual a existência do problema decorre temporalmente do surgimento
do ChatGPT, sem necessidade de demonstrá-lo explicitamente.
II. O trecho
produz uma
inferência de natureza causal, segundo a qual a dependência tecnológica compromete progressivamente a autonomia
intelectual dos estudantes.
III. A expressão
, empregada pelo autor ao comentar a necessidade de aplicar provas presenciais,
constitui uma marca avaliativa que evidencia subjetividade discursiva e reforça o posicionamento argumentativo do enunciador.
IV. Ao afirmar que
, o autor constrói um efeito de sentido baseado na comparação de consequências, estabelecendo uma hierarquia axiológica que orienta a interpretação do leitor.
V. A afirmação
autoriza inferir, exclusivamente a partir do texto, que todos os produtores de textos longos e frequentes utilizam Inteligência Artificial.
Assinale a alternativa CORRETA.