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COM BASE NO TEXTO I, RESPONDA S QUESTÕES DE NÚMERO 01 A 05.
Texto I
1Imaginemos uma situação. Há muitos e muitos anos. Alguém chega a uma terra estranha e
inexplorada. Trata de se situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem
nas redondezas. Após algumas tentativas fracassadas, conclui que certo ponto é o local mais
adequado para providenciar um abrigo. Trata de construí-lo e torná-lo o mais confortável possível.
5Depois encontra alguns vizinhos distantes, com outras vivências diferentes. Trocam experiências,
fazem amizade, incorporam mutuamente as descobertas um do outro. Em mais algum tempo,
constitui-se um novo núcleo familiar. A casa cresce, ganha uma plantação, um cercadinho para os
animais. Faz-se uma estradinha e uma ponte para facilitar o convívio com os amigos. Novas e
crescentes conquistas e aquisições. E assim por diante. Por várias gerações.
10Alguns descendentes podem resolver explorar outros lugares. Mas levam a memória da casa,
da plantação, das comidas, da ponte. Levam as ferramentas inventadas, os utensílios desenvolvidos,
as lembranças acumuladas. E tudo se torna muito mais simples para eles graças a isso. Sua trajetória
parte do zero, mas de vitórias e realizações anteriores.
Se um desses descendentes sofrer de uma forma de amnésia total, não conseguirá aproveitar
15nada do que seus ancestrais fizeram. Ele não terá a memória das outras experiências. Vai ter que
começar do nada. Chegando a uma terra estranha e inexplorada, pode nem ao menos tratar de se
situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem nas redondezas... Talvez
procure um abrigo na areia onde a cheia do rio o carregue ou onde as feras vêm beber água. Não
aprendeu com quem viveu antes. Não tem uma experiência anterior que lhe informe nada. Não sabe
20pescar nem cozinhar, não maneja uma ferramenta, desconhece armas e utensílios. Pior ainda, pode
estar em frente à casa que herdou e não saber para que serve aquilo. Pode ouvir o chamado de seus
vizinhos e não entender o que lhe dizem.
Reduzido ao instinto, o pobre desmemoriado terá sua própria sobrevivência ameaçada. Um
caso de trágico desperdício.
25Ou então, pode-se imaginar alguém que deseja muito melhorar de vida e tem na sala uma arca
cheia de tesouros que os avós e os pais lhe deixaram. Mata-se de trabalhar, mas nunca supôs que
aquele baú fosse mais do que uma caixa vazia. Jamais teve o impulso de arrombá-lo ou a curiosidade
de procurar uma chave que o abrisse. Todo aquele patrimônio, ali pertinho, ao seu alcance, não lhe
serve para nada. Um monumento à inutilidade.
30De alguma forma, toda a humanidade passa por riscos semelhantes. Temos de herança o
imenso patrimônio da leitura de obras valiosíssimas que vêm se acumulando pelos séculos afora. Mas
muitas vezes nem desconfiamos disso e nem nos interessamos pela possibilidade de abri-las, ao
menos para ver o que há lá dentro. É uma pena e um desperdício.
Talvez essa seja a primeira razão pela qual eu sempre quis explorar tudo o que eu pudesse
35nessa arca e, mais tarde, aproximar meus filhos dos clássicos. Porque eu sei que é um legado
riquíssimo, que se trata de um tesouro inestimável que nós herdamos e ao qual temos direito. Seria
uma estupidez e um absurdo não exigir nossa parte ou simplesmente abrir mão da parte que nos
pertence e deixar que os outros se apoderem de tudo sem dividir conosco.
Ah, sim, porque esse risco também sempre esteve presente na história da humanidade.
40Tradicionalmente, a leitura devia ser para poucos porque ela é sempre um elemento de poder e podia
ameaçar as minorias que controlavam os livros (e o conhecimento, o saber, a informação). Esses ideais
de alfabetização para todos e acesso amplo aos livros são muito recentes na História. Mas como
estão aí e não há mais jeito para conseguir manter a massa na ignorância total, até parece que surgiu
outra tática de propósito: distrair a maioria da população com outras coisas, para que ela nem
45perceba que tem uma arca cheia de um rico tesouro bem à sua disposição, pertinho, ali no canto
da sala. (...)
Assim, à minha reivindicação de ler literatura (o que, evidentemente, inclui os clássicos),
porque é nosso direito, vem se somar uma determinação de ler porque é uma forma de resistência.
Esse patrimônio está sendo acumulado há milênios, está à minha disposição, uma parte é minha e
50ninguém tasca. (...)
Direito e resistência são duas boas razões para a gente chegar perto dos clássicos. Mas há
mais. Talvez a principal seja o prazer que essa leitura nos dá.
(MACHADO. Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 16-19. Texto adaptado.)
“Mas como estão aí e não há mais jeito para conseguir manter a massa na ignorância total, até parece que surgiu outra tática de propósito: distrair a maioria da população com outras coisas, [...]” (l. 42-44)
Os trechos sublinhados apresentam, respectivamente, os sentidos de