Texto, para responder às questões 4 e 5.
1____Um dia, quando lhe perguntarem onde é que
nasceu, a moça poderá responder, sorrindo: “Na lixeira”. Pois
realmente foi ali que a jogaram, entre cascas de banana e
4 borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a
retiraram, viva, para que desse testemunho: até numa lixeira
a vida pode começar.
7____O suposto nascimento anterior, num quarto, não
vale para essa menina da Rua Pedro Américo; ele se
consumou na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez
10 sem que o pai tivesse notícia e mesmo sem que a mãe
tivesse notícia do pai. Não era desejado, não veio precedido
de amor, mas de vergonha, medo, angústia, recriminação.
13 Quem nasce sob tais condições negativas é como se não
nascesse, e a lixeira foi o instrumento providencial que
ocorreu à mãe dessa menina errada, para anular, em escala
16 individual, o efeito da explosão demográfica. Enquanto não
se decide a construção de crematórios para os que acabam
regularmente, aí está, para os que começam irregularmente,
19 o incinerador do lixo doméstico. Nem seria preciso queimar a
menina, com os demais detritos da casa. A morte viria
logo — necessária, oportuna, benfazeja.
22___Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma
imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas
mães solteiras, desesperadas ou não, lhe confiaram. Ficou
25 surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que
demonstram a inconveniência de salvar-se uma vida de
origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina
28 como a lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico
ou resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o
chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de
31 cozinha, ou a queda de uma lata vazia de pessegada sobre a
cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar,
dando-lhe ar pútrido e temperatura de fornalha, para que
34 melhor protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a
atenção do faxineiro.
E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas a
37 recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava
nascendo, na porcaria, uma criança; e outro menino não
nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais,
40 no estábulo, entre o farelo e o milho? A lixeira pode fazer as
vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que
quer manifestar-se de qualquer modo e não encontra outra
43 saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia
dessa lixeira, não salvaram, criaram a vida. Foi lá que a
criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos,
46 a ordem econômica e os últimos preconceitos lhe negaram
ou lhe impediram a existência.
A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria
49 reconhecida: “Devo minha vida a uma lixeira, foi nela que vim
ao mundo”. E nós também devemos alguma coisa a essa
lixeira: a lição de respeito à vida.
Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, v. 1.
Em muitas passagens do texto, aparece a figura de estilo conhecida como personificação ou prosopopeia, que consiste em atribuir a objetos inanimados ou a seres irracionais sentimentos ou ações próprias dos seres humanos. Assinale a alternativa em que não aparece essa figura.