Leia o texto para responder a questão abaixo.
Tal pai, tal filho
Giro a garrafa em direção à torrada. O percurso é lento, custoso até a bolha de ar chegar ao fundo e empurrar o mel para fora. Ele me olha entre curioso e impaciente.
– Olha, pai, tá saindo!
Com o dedo sujo da canetinha azul (a mãe bem avisou que era pra lavar as mãos), ele esfrega o mel na fatia e leva à boca.
Aguardo sua reação como quem aguarda um referendo. Com a boca já melada, ele morde o dedo, me olha, olha para a garrafa, já recomposta em seu volume.
Morde mais um pedaço e pede mais, e eu fico em dúvida se abro de novo a garrafa de mel ou se faço uma foto desse pequeno passo para a humanidade e grande salto para o pai que descobre os prazeres da transmissão de um legado.
Penso se algum dia, daqui a 30 anos, ele vai se lembrar do dia em que seu pai o levou para conhecer o mel ou as pedras de gelo. Lembrará que estávamos sozinhos em casa, a mãe já no trabalho.
Enquanto ele mastigava, me sentia num ponto equidistante entre este nosso tempo e o de meu pai, que hoje completa 60 anos. Há 30 anos ele provavelmente se exasperava vendo o filho experimentar tudo pela primeira vez – provavelmente com a mesma ansiedade de se ver, de certa forma, continuado em seus gostos e hábitos.
Silenciosamente vou listando tudo o que gostaria de dizer no aniversário dele até ser interrompido por meu filho de quase três anos, que acaba de pegar um pacote de batata palha e cobrir a cachorra de farelo. Olho feio e berro alto. Ele se esconde. “Você tem medo, mas não tem vergonha nessa sua cara de pau, né?”. Ele segura o riso e eu me recomponho, tentando lembrar o dia exato em que virei o meu pai.
(Matheus Pichonelli. www.cartacapital.com.br/cultura/tal-pai-tal-filho, 29.01.2016. Adaptado)
No terceiro parágrafo, os parênteses usados no trecho – Com o dedo sujo da canetinha azul (a mãe bem avisou que era pra lavar as mãos), ele esfrega o mel na fatia e leva à boca. – servem ao propósito de destacar