Magna Concursos
1506643 Ano: 2017
Disciplina: Português
Banca: Col.Mil. Rio de Janeiro
Orgão: Col.Mil. Rio Janeiro

TEXTO I


Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones

João Pereira Coutinho

1Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está

com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O

que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?

Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos

5saudáveis.

Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do

tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.

Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando

raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o

10iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.

Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o

smartphone ao velho e bom cochilo.

Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem

eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma

15espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.

O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor

sabe, todos sabemos dessa miserável privação.

Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta

do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.

20Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone

dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer

coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,

começam a despejar perfume pela goela.

Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um

25último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer

interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas

de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou

até aqui?

Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso

30um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.

Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito

sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um

problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos

– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de

35agirmos em conformidade.

Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma

parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que

problematiza, critica, propõe.

No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos

40smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e

sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.

Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e

só o homem entediado terá chance de salvação.

Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).

VOCABULÁRIO:

1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.

2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.

3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.

4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.

5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.

O texto I, de João Pereira Coutinho, é uma crônica. Enquadra-se afinado, pois, tanto com os gêneros jornalísticos quanto com os artísticos. Em relação às especificidades destes últimos, cronistas costumam-se valer de recursos estilísticos que enriqueçam seu texto. Indique a alternativa que demonstra adequada associação entre exemplo destacado e recurso utilizado na crônica.

 

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