Com base na leitura do poema a seguir, responda à questão 6.
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A mão suja
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Minha mão está suja.
Preciso cortá-la.
Não adianta lavar.
A água está podre.
Nem ensaboar.
O sabão é ruim.
A mão está suja,
suja há muitos anos.
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[...]
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Ai, quantas noites
no fundo de casa
lavei essa mão,
poli-a, escovei-a.
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[...]
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Eu era um sujo vil,
não sujo de terra,
sujo de carvão,
casca de ferida,
suor na camisa
de quem trabalhou.
Era um triste sujo
feito de doença
e de mortal desgosto
na pele enfarada.
Não era sujo preto
― o preto tão puro
numa coisa branca.
Era sujo pardo,
pardo, tardo, cardo.
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Inútil reter
a ignóbil mão suja
posta sobre a mesa.
Depressa, cortá-la,
fazê-la em pedaços
e jogá-la ao mar!
Com o tempo, a esperança
e seus maquinismos,
outra mão virá
pura ― transparente ―
colar-se a meu braço.
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(ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, p. 108. Adaptado.)
A ideia de ter que cortar a “mão suja” sugere o anseio do sujeito por uma transformação de ordem: