Seriam os catadores heróis?
Fábio Fonseca Figueiredo
O programa Globo Repórter exibido na sexta-feira (27/04/2012) intitulou-se “Heróis anônimos da reciclagem”. Através de ótimas imagens e focalizando o cotidiano de um catador de São Paulo, a reportagem nos mostra que a coleta informal de lixo pode ser uma atividade produtiva, economicamente viável, prazerosa e bem divertida. Ao som de um belo tango argentino, enquanto o catador atravessa as ruas da capital paulista, a reportagem compara os passos do catador a passos de um bailarino que, com desenvoltura, empurra o carrinho de quase meia tonelada de materiais recicláveis.
A reportagem trata o catador como um brasileiro esforçado e que não foge à luta! Embora nunca tenha frequentado a escola, “o catador tem letra bonita e faz conta de cabeça com precisão”. Apesar de não possuir curso superior, “o catador é chamado para dar palestras sobre meio ambiente no Brasil e até no exterior”. A população, conforme a reportagem, o vê como professor de cidadania e ecologia. Elementos, portanto, que condizem com a inscrição no carrinho do catador e mostrada no início da reportagem: um catador faz mais do que um ministro do meio ambiente.
Chamado de herói anônimo das ruas, o Globo Repórter convida o catador para uma bateria de exames em um hospital universitário. Em meio ao ótimo humor daquele herói que brinca com os jovens médicos, sua pressão arterial estava em 12,5 por 8, seu teste físico considerado excelente. Diagnóstico médico: o paciente possui excelente qualidade de vida. Ao som de um conhecido techno dos anos noventa, a reportagem exalta os resultados obtidos, e nos faz pensar que trabalhar carregando materiais recicláveis nas ruas das cidades favorece a saúde humana.
Apesar das belas histórias de anônimos que, como ratazanas, catam os materiais recicláveis das poluídas avenidas brasis, não nos enganemos: os catadores não são necessários para a sociedade. O catador faz parte de um estrato social no qual, desprovido de possibilidades/oportunidades de ascensão social, migra para atividades que demandam baixa qualificação profissional e, portanto, recebe baixos salários. Estudos mostram que o catador é um sujeito que possui baixa ou nenhuma escolarização, foi expulso do meio rural devido à concentração de terras ou compõe a parte mais pobre das periferias das cidades brasileiras. O catador atua na coleta de materiais recicláveis devido à “facilidade” da ocupação, ou seja, a disponibilidade de lixo nas ruas, o que comprova a ineficiência dos serviços de coleta prestados pelas prefeituras das cidades brasileiras.
Esses sujeitos, dignos de atenção por parte dos governantes e de benevolência por parte da população, compõem a parte mais fragilizada de uma poderosa indústria de reciclagem que socializa os custos da coleta de suas matérias-primas (os materiais recicláveis) através do não pagamento do serviço de coleta aos catadores. Portanto, não serão as políticas públicas de financiamento a entidades de catadores que farão estes sujeitos se inserirem no tecido social brasileiro. O estigma de ser catador pesa como os carrinhos pilhados de recicláveis que estes sujeitos empurram... assim como pesa o estigma de ser coveiro, doméstica, gari, profissionais do sexo, flanelinha, servente de pedreiro... Inclusão social é algo mais amplo, implica o cuidado que o Estado deve ter com a população e possibilitar oportunidades semelhantes aos diferentes.
Da forma como foi mostrado na reportagem do Globo Repórter, o trabalho da coleta de recicláveis parece ser uma das profissões que se apresentam neste início de século, apesar de esconder a falta de políticas públicas direcionadas à diminuição na geração de resíduos, e de esconder também a exclusão social presente e intensa na nossa sociedade. Ouso perguntar se alguém gostaria de ver seu filho/filha como catador, mesmo com o reconhecimento formal que a atividade já possui no cadastro brasileiro de ocupações e com todos os direitos trabalhistas reconhecidos. Não nos enganemos, o trabalho deve ressignificar os sujeitos e não relegá-los à condição de necessários, heróis, como o Globo Repórter mostrou, permeado por arreganhar de dentes de felicidade.
(Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed693_seriam_os_catadores_herois. Acesso em 20 maio 2013.)
Se, na frase “O catador faz parte de um estrato social no qual, desprovido de possibilidades/oportunidades de ascensão social, migra para atividades que demandam baixa qualificação profissional e, portanto, recebe baixos salários”, “o catador” fosse substituído por ‘os catadores’, seria necessário flexionar, em toda a frase, mais: