Magna Concursos
4228710 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: Pref. Água Doce-SC

A saudade é azul

Por Adriana Antunes

Abro as janelas e os dias seguem cinzas. Confesso que já gostei mais de dias assim. Hoje

prefiro claridade e calor. Prefiro azul. O mundo é azul nas .... . Dias atrás relembrei um

ensinamento do tempo da escola, mas que havia esquecido, de que não existe céu. O céu é

apenas um fenômeno. Esse azul que vemos é a luz que se perdeu. É a ponta azul do espectro

que vemos. Mas a parte científica não tem poesia. Os dias azuis são mais oníricos e

melancólicos, pois nos remetem aos lugares mais distantes. O azul é a cor da saudade das

distâncias que nunca alcançaremos. O azul é a distância entre nós.

Tenho lido Simone Weil, volta e meia. E ela diz, numa de suas explicações filosóficas, que

aqueles que não se amam nunca se separam. Daí, penso neste azul que nos separa de amigos

queridos. Estamos todos carentes de amizades. Todos sem tempo e sem espaço para uma

conversa. Há um azul que nos distancia da adolescência, quando viver só fazia sentido se

compartilhado com os amigos. Depois, em algum ponto da vida adulta, isso se perde. Um azul

.... nos separa de quem fomos. Nos separa uns dos outros também. Talvez eu esteja

melancolicamente azul nesta crônica. O longe se infiltra mesmo que estejamos próximos.

Afinal, nós também mal conhecemos nossas distâncias e profundezas. Assim, vestimos lonjuras

e nos mantemos distantes, sejam por coisas ditas ou não ditas.

Minha casa de infância era azul. Uma casa que não existe mais e até mesmo em sonhos

ela começa a desaparecer. Deve ser a idade. Nunca estive tão longe do começo. Guardo a

imagem como uma memória cintilante na cianotipia do tempo. Vejo algumas fotos daquela

época e o longe se torna perto, ao mesmo tempo que os dois não são o mesmo lugar. Os dias

cinzas se sucedem e eu me lembro do azul do mar.

Uma vez, numa época complicada, estava dentro do mar e senti como se eu fizesse parte

do todo. Uma sensação estranha e sem vocabulário. Para Deleuze, que tanto amo, um devir.

Há coisas em nós que são um mistério insondável e tentar explicar não reproduz os abismos.

Há quem ainda prefira o inverno, assim como o eu de antes. Hoje atravesso a estação ___

espera do azul. E pensar que ele nem começou ainda. Eu nasci no inverno. Mas o azul da

distância só vem com o tempo, com a descoberta da tristeza, da melancolia, da perda. A

saudade é feita de .... do tempo. E é azul. Lembro de meus amigos que ___ tempos não vejo,

não abraço. Mas como diz Rebeca Solnit, certos afetos só continuam existindo em nós enquanto

perdidos e outros não se perdem porque permanecem distantes.

(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/adriana-antunes/noticia/2026/06/a-saudade-e-azul-cmqfm2azy009p012tf5834oau.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa que apresenta um trecho no qual NÃO foi empregada linguagem figurada.
 

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