Original até no plágio
Por Humberto Werneck
Sabem os cronistas ___ que extremos pode levá-los a obrigação de encher um palmo de
jornal ou revista e não ter assunto para rechear o espaço.
Este é todo um longo e divertido capítulo do ofício. Divertido, é claro, apenas para o leitor,
que nem sempre poderia imaginar o pesadelo que foi para Paulo Mendes Campos, por exemplo,
alinhavar a deliciosa “Vaidades e uma explicação” ou, para Antônio Maria, pôr de pé sua
impecável “Amanhecer no Margarida’s”.
Fernando Sabino lembrou com muita graça o dia em que o colega Rubem Braga, ___
míngua de assunto, lhe perguntou se tinha alguma crônica usada que pudesse lhe ceder.
Organizadíssimo, o escritor mineiro baixou a seus arquivos e de lá trouxe a história de uma sopa
servida a preço irrisório no Centro do Rio de Janeiro. O Velho Braga apanhou a crônica, deu um
tapinha no texto e publicou.
Tempos mais tarde, foi Sabino quem precisou de crônica de segunda mão, e fez ao amigo
a mesma pergunta que ele lhe fizera. Braga mexeu e remexeu em seus papéis e o que exumou
ali? Justamente ___ crônica da sopa dos pobres. Fernando ensaiou reclamação, mas, sem
alternativa, engoliu a requentada sopa, com o trabalho adicional de trocar alguns ingredientes,
de forma a disfarçar o sabor de coisa por demais manjada. Por via das dúvidas, para cortar
qualquer possibilidade de mais idas e vindas, enfiou ali a informação de que o maldito caldo ia
sumir do cardápio.
O mesmo Braga tem duas outras histórias célebres de saídas brilhantes para o sufoco da
falta de assunto. Numa das crises de inspiração zero, ainda no começo da carreira, ele encheu
sua coluna, num jornal paulistano, de impropérios contra o leitor, sobre o qual despejou até
mesmo pragas de forma tão graciosa, porém, que se tornou impossível abandonar a leitura,
arrematada com um “Passe mal!”.
Pela mesma época, Rubem Braga saiu-se ainda mais brilhantemente no dia em que, sem
outro recurso, decidiu simplesmente publicar crônica alheia, de autoria de um amigo, ainda por
cima, Carlos Drummond de Andrade, estampada fazia pouco num jornal de Belo Horizonte.
Não, não se vai contar aqui a saborosa história – trate, sem mais tardança, de buscá-la
por conta própria, e se regale com a criatividade de Rubem Braga, brilhante até mesmo quando
recorre a texto que não seja seu.
(Disponível em: cronicabrasileira.org.br/res-do-chao/12332/original-ate-no-plagio – texto adaptado especialmente para esta prova).