As lições do quase
Por Helô Bacichette
Foi o escritor José Clemente Pozenato quem me apresentou, sem saber, um dos lugares
mais habitados da condição humana. Durante uma oficina literária, enquanto abordávamos ___
grandes temáticas da literatura, ele contou a história de um personagem consumido pela revolta
de não ser filho de sangue da família que o criou. Sua dor nascia menos da vida que vivera do
que daquela que imaginava ter perdido. Carregava uma pergunta impossível de responder:
“e se?”. Era alguém criado quase como filho.
O quase atravessa a vida de todos nós. Mora nas pequenas frustrações e nos grandes
acontecimentos: no amor que não encontrou o tempo certo, na palavra que morreu nos lábios,
no abraço adiado pelo orgulho, no perdão que chegou tarde demais.
Há também os outros quases. Quem cruzou a linha de chegada um segundo depois, quem
escapou da morte por um instante. Quem perdeu um ônibus, desistiu de um voo ou mudou de
caminho na última hora e, sem saber, alterou o rumo da própria história. ___ vezes, basta um
instante para que a vida escolha outro desfecho. Talvez essa seja sua beleza e também sua
melancolia: nunca saberemos quem teríamos sido se tudo tivesse acontecido de outro modo.
Não por acaso, a literatura também gosta dos quases. Eles são feitos da mesma matéria
Um pedaço de madeira é apenas madeira ou, nas mãos de uma criança, já é quase um barco?
Uma folha em branco é apenas papel ou quase um livro?
das perguntas. Quando li “Objeto Quase”, de José Saramago, o título passou a me acompanhar.
O quase habita os objetos, ___ espera de um olhar capaz de lhes revelar outras
possibilidades. Habita, igualmente, a própria literatura. Há poemas que contam histórias, contos
que respiram como poemas, romances feitos de pequenas crônicas. A literatura parece
desconfiar das fronteiras rígidas e preferir os lugares onde uma forma começa a se transformar
em outra.
O curioso é que o quase nunca aconteceu. Não oferece respostas definitivas. Ainda assim
permanece. Volta em noites silenciosas e inventa destinos paralelos, como se a imaginação
insistisse em escrever capítulos que a realidade recusou.
Quem sabe esta própria crônica seja quase um conto. Ou quase um poema. Talvez seja até
um quase de tudo isso. Afinal, desde aquela oficina com o saudoso escritor José Clemente
Pozenato, descobri que a literatura é um dos lugares onde os quases continuam vivendo. E é por
isso que ela continua a nos perguntar: “e se?”.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/helo-bacichette/noticia/2026/07/as-licoes-do-quase-cmrz4vd8v01sj014c4d62vmy5.html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Coluna 1
1. Advérbio.
2. Substantivo.
Coluna 2
( ) “Era alguém criado quase como filho”.
( ) “O quase atravessa a vida de todos nós”.
( ) “Não por acaso, a literatura também gosta dos quases”.
( ) “Quem sabe esta própria crônica seja quase um conto”.
A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é: