Não sou supersticioso. É claro que, se vou pela rua e vejo uma escada em meu caminho, não passo embaixo dela, não porque ache que dá azar,b mas por temer que caia alguma coisa em minha cabeça. Do mesmo modo com relação ao número 13, de que os americanos têm tanto medo que muitos de seus edifícios não têm o décimo terceiro andar: pula do décimo segundo para o décimo quartoa. E quando junta esse azarado número à sexta-feira, aí tem gente que nem sai de casa: sexta-feira treze! Deus me livre e guarde! Pois eu não, estou pouco ligandoc. Bom, se puder tomar o avião na quinta-feira ou no sábadoc, prefiro. Mas não por superstição, é que não vou dar chance ao azar...
Mas, como disse, supersticioso não sou. É verdade que algumas coisas me deixam grilado, como certas coincidências. Por exemplo, tenho observado que, toda vez que vou cruzar a rua fora do sinale, vem sempre alguém em sentido contrário e na minha exata direção! Que isso aconteça uma vez ou outra, tudo bem, mas todas as vezes deixa o cara cabreiro.
(Ferreira Gullar. Crônicas para jovens, 2014. Adaptado)