Não almocei nem jantei
O sonho do mineiro é não almoçar nem
jantar. É que ele sempre busca transformar
o café da manhã em almoço e o café da
tarde em jantar
Fabrício Carpinejar | 1 de março de 2024
O sonho do mineiro é não almoçar nem
jantar.
Não que esteja realizando uma dieta ou
um regime. Não que esteja combatendo
suas taxas de glicose e colesterol. Não que
seja uma providência médica adotada a
contragosto.
É que ele sempre busca transformar o
café da manhã em almoço e o café da tarde
em jantar.
Não espere a contenção de ânimo ou de
despesas, de fome ou de tempo. Representa
a exuberância de começar e terminar bem
o dia: o amanhecer da esperança e o
crepúsculo da verdade.
Não há espumante que rivalize com a
elegância do café passado no coador de
pano. Não há prato quente que supere a
rabanada.
O café da manhã torna-se o banquete do
lar, com degustação de embutidos. Jamais
haverá um só tipo de queijo. Em toda
família tradicional, pede-se no mínimo a
exposição de três opções na tábua, com a
faca visível.
Os pães poderão queimar o céu da boca.
Os biscoitos de polvilho estarão crocantes.
Sucos e vitaminas compõem o cenário
das jarras. Haverá sempre um bolo de fubá
para coroar a refeição. Na frigideira,
começará a briga entre o time da omelete e
o dos ovos mexidos.
A toalha formará uma tapeçaria de
farelos e de manchas coloridas de
goiabada, coalhada e requeijão. Os
comensais não terão como reutilizá-la,
encaminhando-a ineditamente para a
lavanderia.
A mesa ficará nua por algumas horas,
em homenagem a tudo que foi consumido.
Já o café da tarde costuma surgir para
visitas, no apogeu da comida de boteco
dentro de casa. São mais saídas do que
entradas, com a permissão de coxinhas e
de empadas. O repertório se estende para
os mais diversos salgados. A fritura não é
barrada. Pasteizinhos começam a ser feitos
de improviso. Aproveita-se o óleo para os
bolinhos de chuva. Um quitute puxa o
outro, numa economia criativa.
A decoração ultrapassa a natureza
estática de frios. Existe fumaça, existe um
transitar de panelas junto aos pratos.
Dependendo do clima ameno, surgirá uma
canjiquinha de milho. Ou um caldo de
feijão.
Ainda é café, por mais que pareça Kerb.
Ainda é tardezinha, por mais que pareça
noite. Trata-se de um tira-gosto farto e
infinito. Sua missão é experimentar o que é
servido. Talvez se converta em sobremesa o
bolo de cenoura com cobertura de
chocolate. Talvez abra exceção para uma
fatia de uma broa fumegante.
Você vai degustando e criando uma
corrente de curiosidade com os demais:
“Não deixe de provar a goiabada” ou “dê
uma colherada no arroz-doce”. Assim os
incita à gula coletiva e perdoa os próprios
excessos em nome de um momento
imperdível, de uma iguaria sublime.
Ninguém permanece de fora da tentação,
da repetição, do “quero mais”.
Mineiro guarda segredo porque todos
pecam juntos.
No fim do dia, é comum ainda se
vangloriar da proeza aos amigos:
— Hoje não almocei nem jantei!
Nós sabemos o que de fato aconteceu. O
olhar chega a estar gordo de petiscos.
CARPINEJAR, Fabrício. Não almocei nem jantei. O Tempo, 1º de março de 2024. Disponível em:
https://www.otempo.com.br/opiniao/fabricio-carpinejar/nao-almocei-nem-jantei-1.3339861.
Acesso em: 01 mar. 2024. Adaptado.
Glossário:
— Kerb: Festa germânica realizada por agricultores no período da colheita.
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Contador
30 Questões
Farmacêutico
30 Questões
Fisioterapeuta
30 Questões
Fonoaudiólogo
30 Questões
Gestor Público
30 Questões
Médico
30 Questões
Médico - Ginecologia e Obstetrícia
30 Questões
Nutricionista
30 Questões
Professor
30 Questões
Psicólogo
30 Questões
Psicopedagogo
30 Questões