Uma das minhas primeiras memórias de criança é o dia em que os meus irmãos mais
novos nasceram. Ou melhor, o dia seguinte. Eu e meu pai despertamos com o sol que entrava
pela janela do quarto dele. Rapidinho saímos de casa, em Guarulhos, rumo ..... maternidade na
Avenida Paulista. Uma viagem de distância intergaláctica quando se tem 2 anos e pouco. E depois
disso também. No caminho, decidimos levar um presente para a minha mãe e os gêmeos. Não
sei onde meu pai estava com a cabeça, mas eu fiquei encarregado da decisão. Compramos um
pinguim de geladeira.
A história desse tipo de enfeite começou nos anos 1950. Antes dos modelos retos e em
inox, as geladeiras tinham jeitão de móvel, com design mais robusto e colorido. Para evitar que
as pessoas confundissem os seus refrigeradores com outros itens nas lojas, a fabricante
Kelvinator começou a distribuir pinguins de cerâmica aos vendedores, para que eles os
colocassem em cima dos aparelhos da empresa. Uma forma de distinção que pegou: com o
tempo, as pessoas começaram a pedir para levar também as estatuetas. Elas foram bastante
populares até algumas décadas atrás. Hoje, nem tanto. Pertencem ao mesmo grupo do relógio
de parede, da fruta de plástico e da capa de botijão em crochê. Do alto da geladeira, os pinguins
___ a vida passar no cômodo mais cheio de vida das casas brasileiras: a cozinha. Testemunham
cafezinhos e almoços de domingo, mas também DRs e brigas de família. Tudo isso de forma
discreta, com cara (ou seria bico?) de paisagem. Em resumo: dariam ótimos fofoqueiros. E você
vai entender que isso não é necessariamente algo ruim.
Convido os leitores a ___ de lado o preconceito contra a fofoca por um momento e
analisá-la sob as lentes da psicologia evolucionista. Fuxicar tem seu lado ruim, claro - mas
também nos dá munição para entender o mundo ao nosso redor, além de ajudar a regular o
convívio social. Sem tricotar, talvez não tivéssemos chegado até aqui.
Colocando isso em prática, vou compartilhar duas fofocas do bem. A primeira é sobre uma
colega de trabalho: este é o seu último mês na revista antes de começar em um novo emprego
bacana. Sentiremos saudade - mas conforta saber que ela continuará produzindo ótimas
matérias. Seguirei como um fiel leitor. A segunda é sobre o pinguim que comprei 25 anos atrás.
No momento em que escrevo este texto, ele saiu do armário de casa (já bem desbotado, coitado)
e se encontra naquele mesmo hospital da Paulista. Desta vez, nas mãos da minha irmã,
Fernanda, que deu ..... luz sua primeira filha, Alice, a quem dedico esta edição. O bom pinguim
...... casa torna.
Até logo, caro leitor. Fofoque com moderação.