Texto CG1A2-I
Ainda há muito o que estudar sobre a árvore
genealógica das línguas de todo o continente americano. Como na África, a
linguística moderna chegou tarde a essa região e encontrou um cenário marcado
pela destruição, pelo desaparecimento não documentado de uma quantidade de
idiomas que mal conseguimos avaliar. Os idiomas que se viram mais diretamente
envolvidos no processo de formação do português que viríamos a falar no Brasil
são os do grupo tupi, falados por nações como os caetés, potiguara, tamoio,
tupinambá, tupiniquim... Esses povos parecem ter iniciado uma imigração a
partir da Amazônia, no início da Era Comum, ou seja, há mais de 2.000 anos. Por
um lado, eles se expandiram para o litoral norte, depois rumo ao nordeste e ao
sudeste do Brasil; por outro, desceram a região central rumo ao sul do país.
A presença mais ou menos uniforme de grupos tupis nas
costas do Brasil teria um papel fundamental na história linguística do que um
dia viria a ser essa imensa nação lusófona na América do Sul. Numa região de
vegetação fechada e rala densidade populacional, o litoral era o fio condutor
mais vigoroso de contatos e aproximações. E como os povos que habitavam um
trecho gigantesco do litoral brasileiro eram relacionados, isso gerava um tipo
de uniformidade de hábitos, tradições e idioma, que possibilitou que os
portugueses os considerassem como “um povo”, falante de uma mesma língua, uma
forma do tupi, que, ao que parece, variava pouco entre um grupo e outro. Essa
foi a língua cuja gramática, afinal, seria descrita pelos jesuítas europeus — a
língua que estaria na base de uma das legítimas “línguas brasileiras” que foram
desenvolvidas aqui e que, séculos depois da chegada dos portugueses, ainda
representariam uma direta concorrência para o sucesso do idioma de Portugal
nessas plagas.