A beleza total
A beleza de Gertrudes fascinava todo
mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos
pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a
refletir as pessoas da casa e muito menos as
visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de
Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o
espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços.
A moça já não podia sair à rua, pois os
veículos paravam à revelia dos condutores, e
estes, por sua vez, perdiam toda capacidade de
ação. Houve um engarrafamento monstro, que
durou uma semana, embora Gertrudes houvesse
voltado logo para casa.
O Senado aprovou lei de emergência,
proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça
vivia confinada num salão em que só penetrava
sua mãe.
Gertrudes não podia fazer nada. Nascera
assim, este era o seu destino fatal: a extrema
beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por
falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e
um dia cerrou os olhos para sempre. Sua beleza
saiu do corpo e ficou pairando, imortal. O corpo
já então enfezado de Gertrudes foi recolhido ao
jazigo, e a beleza de Gertrudes continuou
cintilando no salão fechado a sete chaves.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. 1
ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 18.
(adaptado)
“O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe.”
Em relação à regência verbal do verbo “aprovar” que ocorre especificamente no trecho destacado do texto, assinale a alternativa correta. O verbo “aprovar” na frase acima é: