Leia o texto a seguir para responder a questão.
Uma vez por semana, o torcedor foge de casa e vai ao
estádio.
Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes,
os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade
desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste
espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe
suas divindades. Embora o torcedor possa contemplar o
milagre, mais comodamente, na tela de sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar onde possa ver em
carne e osso seus anjos lutando em duelo contra os demônios da rodada.
Aqui o torcedor agita o lenço, engole saliva, engole
veneno, come o boné, sussurra preces e maldições, e de
repente arrebenta a garganta numa ovação e salta feito
pulga abraçando o desconhecido que grita gol ao seu lado.
Enquanto dura a missa pagã, o torcedor é muitos. Compartilha com milhares de devotos a certeza de que somos os
melhores, todos os juízes estão vendidos, todos os rivais
são trapaceiros.
É raro o torcedor que diz: “Meu time joga hoje”. Sempre
diz: “Nós jogamos hoje”. Este jogador número doze sabe
muito bem que é ele quem sopra os ventos de fervor que
empurram a bola quando ela dorme, do mesmo jeito que os
outros onze jogadores sabem que jogar sem torcida é como
dançar sem música.
Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da
arquibancada, celebra sua vitória, “que goleada fizemos, que
surra a gente deu neles”, ou chora sua derrota, “nos roubaram
outra vez, juiz ladrão”. E então o sol vai embora, e o torcedor
se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos
degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de
fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O
estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão,
um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde,
e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas
depois da morte do carnaval.
(Eduardo Galeano, “O torcedor”. In: _____________. Futebol ao sol e à sombra.
São Paulo: L&PM Pocket, 2024. Adaptado)
“Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo.” (2º parágrafo)
O sinal de dois-pontos, presente no trecho, tem o mesmo sentido de
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