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4178602 Ano: 2026
Disciplina: Português
Banca: UFLA
Orgão: UFLA

A RAÇA SUPERIOR

Walcyr Carrasco

A espécie humana acredita ser a única inteligente. Puro engano. Há tempos

imemoriais nós, os humanos, fomos derrotados por uma raça superior, muito mais

esperta. Mais que derrotados, fomos domesticados. Pelos cachorros. De fato, sob

qualquer índice de avaliação, a raça canina se mostra superior. Quem convive com um

cão gosta de dizer que é "dono". Como acreditar, se tudo prova que o cachorro é dono do

homem? Na questão da alimentação, por exemplo. Qualquer pessoa gasta dinheiro e

tempo para comprar ração. Analisa os vários tipos e até experimenta uns pedacinhos para

avaliar o sabor. Corre atrás de ossos para proporcionar tardes de degustação ao cachorro.

Compra imitações de borracha. Indústrias pesquisam novas rações nutritivas. Gastam

uma fábula em propaganda. Ou seja: sem levantar uma pata, o cachorro faz com que os

seres humanos trabalhem torrando neurônios, tempo e dinheiro simplesmente para

alimentá-los! Certa vez tive uma cachorrinha que só podia comer arroz com cenoura e

carne moída. Estava sem empregada. Durante um mês levantava uma hora antes,

preparava a comida e saía para trabalhar. Ao voltar, servia uma nova refeição e lavava o

prato. Em troca, ela me lambia os dedos. Eu me sentia no cúmulo da felicidade só de

receber essas lambidinhas! Seja dita a verdade: quem era dono de quem?

E na questão amorosa? Quando gosta de alguém o cão abana o rabo. Pode ser um

desconhecido. Gostou, abanou. Quando está a fim, deita-se de patas para cima e lança

um olhar bem pidoncho. Até o coração mais duro não resiste a dar carinho, coçar as

orelhas, fazer uns afagos. Eu, não. Nunca me deitei de barriga para ficar me oferecendo.

Vontade não faltou, mas e a coragem? Nós, seres humanos, usamos artifícios. Gastamos

dinheiro em perfumes, em cabeleireiros, em dermatologistas. Vamos a happy hours,

jantares, festas, barzinhos da moda, entramos em chats da internet, só para achar quem

nos coce as orelhas. Se alguém faz festa para todo mundo que conhece, rebolando como

um cãozinho, vem o veredicto:

— Ih! Está com carência afetiva.

Toca a procurar terapeuta. Horas e horas dedicadas a analisar a pura vontade de

buscar amor! Revistas dedicam quilômetros de papel a práticas de sedução. Como olhar

de lado, como sorrir, como se oferecer sem dar na vista. Mais: como ter coragem de

expressar os sentimentos. Cachorro, não. Abana o rabo e pronto. Muitas vezes, com

ciúme, já tive vontade de morder alguém. Ao contrário, sorri simpaticamente enquanto o

sangue fervia. Cães não possuem esse tipo de constrangimento. Atiram-se em cima do

rival. Mordem a mão de quem acaricia. Até conseguirem seu quinhão de afeto. Mas

também não guardam raiva. Depois de rosnarem um para o outro, dois cães saem

pulando e brincando juntos. Que espécie sabe lidar melhor com as próprias emoções?

A questão da pele também é importante. Criamos indústrias do vestuário porque

não estamos satisfeitos com a própria pele, e inventamos estratagemas para cobri-la. Boa

parte da humanidade se dedica a fabricar tecidos, a inventar e a vender roupas. Qualquer

pessoa ambiciona se vestir bem. Fortunas são despendidas em novos guarda-roupas. A

moda vira, e toca a gastar tudo outra vez. Cachorro, não. Nasce vestido. Imagine-se

quanto delírio, quanta mão-de-obra seria evitada se o ser humano tivesse a mesma

tranquilidade a respeito da própria aparência.

Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça

ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce

aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o

que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o

chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo

as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.

Sento na varanda e meu cachorro se aproxima. Sem nenhuma preocupação na

vida. Deita-se aos meus pés e prepara-se para receber sua dose cotidiana de carinho. Eu

me submeto. Raça superior é isso aí.

Disponível em: https://comissaodecultura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/06/walcyr-carrasco-pequenos-d elitos-e-outras-crc3b4nicas.pdf (Adaptado).

Leia o excerto:

“Chegamos ao X da questão. Criamos filosofias, escrevemos livros. Há quem faça ioga, meditação. Tudo para aprender a aceitar o fardo da existência. O cão já nasce aceitando. A vida é e não é, deve pensar o cão, com a sabedoria de um mestre zen. É o que constato todo dia ao chegar em casa exausto do trabalho, de mau humor com o chefe, com a fatura do cartão de crédito prestes a me degolar, o cheque especial batendo as folhas em torno de minhas orelhas como uma ave de rapina.” (linhas 43 a 48)

Assinale a alternativa que expressa CORRETAMENTE a ideia central desenvolvida no parágrafo:

 

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