“Falam tanto sobre a vida de casado. De como ela acaba
com o amor, de como se tornam distantes os que vivem ao
alcance das mãos. Afirmam que é destino da intimidade abrir
passagem para a indelicadeza, que a disponibilidade afasta o
desejo e a convivência mina o afeto, como se essas fossem
leis imutáveis. São fartos os exemplos dos que vivem juntos
apenas se tolerando, dos que se destroem com o empenho
com que se beijavam.
Que falem os mal-amados sobre suas profecias amargas,
que sinalizem os abismos, as curvas, as areias movediças –
nada comoverá. Não há quem convença um apaixonado com
a dor alheia. Nem a própria dor pode salvá-lo. Cite todos os
casos, reúna todos os parentes infelizes no amor, pregue nas
paredes as páginas policiais escritas com sangue e paixão,
nada demoverá os que foram fisgados.”
Carla Madeira. Tudo é rio.