Como as cidades criaram a escrita e a gramática
Por Mayra Trinca
Estamos tão acostumados a organizar palavras e frases de acordo com as regras do
português que muitas vezes esquecemos de um detalhe: a gramática não é algo intrínseco às
línguas. Um idioma pode existir muito bem sem ela. Assim como a escrita e os dicionários, a
gramática é considerada uma ferramenta que aumenta as possibilidades de usar uma língua.
Na linguística, essas três ferramentas são chamadas de tecnologias de linguagem. E elas
só surgiram com as revoluções urbanas que deram origem ___ cidades. A professora Carolina
Rodríguez-Alcalá, do Laboratório de Estudos Urbanos da Unicamp, explica que essas tecnologias
de linguagem são formas de fixar uma língua no tempo, do mesmo modo que as cidades fixam
as pessoas na cidade. E há uma “coincidência histórica” entre elas.
Os primeiros signos escritos (versões antigas de letras e palavras) ainda não apresentavam
um sistema bem articulado. Eles surgiram no período Neolítico, cerca de 8 mil anos atrás, na
região da Mesopotâmia. Esses registros coincidem com os primeiros assentamentos
permanentes, que também ainda não tinham exatamente as características de uma cidade.
Segundo Rodríguez, o desenvolvimento da escrita e de assentamentos urbanos passou por
um longo processo, que durou séculos ou milênios. “Até que houve um salto qualitativo o qual
chamamos de revolução da escrita e revolução urbana”, explica a pesquisadora. O exemplo mais
conhecido – por ser o mais antigo e bem preservado até então – é o da escrita cuneiforme em
Uruk, considerada a primeira cidade da História, há 5 mil anos.
“O surgimento da escrita está associado ___ cidade, mas a história urbana é também uma
história do Estado como forma política de organização estreitamente ligada ao mercado e ao
comércio”, continua Rodríguez. Com o aumento da concentração de pessoas nas cidades, houve
uma especialização do trabalho e crescimento das trocas comerciais, que exigiam alguma forma
de registro para driblar o esquecimento de quem estava em dívida com quem.
E essa é uma das características que diferenciam sociedades com e sem escrita: a
necessidade de anotar a posse, o acúmulo e a troca de bens. Em lugares com invernos mais
rigorosos, como é o caso de boa parte do hemisfério norte, essa forma de organização social
surge como uma estratégia de sobrevivência. Já nas regiões tropicais, como na América do Sul,
o clima mais constante e a alta biodiversidade tornam o estoque de alimentos dispensável.
“Não é porque certas sociedades foram mais inteligentes que elas desenvolveram a escrita”,
explica Rodríguez. “Mas é porque isso responde ___ uma necessidade colocada por essas formas
de vida”. E ainda que a Mesopotâmia seja o caso mais popular, outras sociedades se urbanizaram
e desenvolveram suas formas de registro e de escrita mais ou menos ao mesmo tempo, como o
Egito, a Índia, a China ou o México e o Peru, no caso das Américas.
Com o desenvolvimento dos Estados, surgiu a necessidade de regras de organização sociais,
como as leis, e a centralização do poder na figura dos reis e governantes. A partir daí, a escrita
deixa de ser uma ferramenta de memória e ganha também a função de mensagem e registro.
(Disponível em: https://super.abril.com.br/historia/como-as-cidades-criaram-a-escrita-e-a-gramatica/ – texto adaptado especialmente para esta prova)
I. Já nos primeiros assentamentos permanentes surgiram os primeiros sistemas de escrita estruturados.
II. É possível inferir que existe uma relação entre o nível de organização e complexidade da língua e o nível de organização e complexidade da comunidade em que ela é utilizada.
III. As sociedades com e sem escrita não são diferenciadas por sua capacidade intelectual, mas pelas estratégias necessárias, em muitos casos, para garantir a sobrevivência.
Quais estão corretas?