Futuro das cidades depende da integração entre água, saneamento e ação climática
A América Latina detém quase um terço dos recursos de água doce no mundo, mas milhões de pessoas ainda não têm
acesso seguro. O Brasil tem avançado, como com a criação do Marco Legal do Saneamento em 2020, que estabeleceu metas
de universalização para 2033. Isso é particularmente importante considerando que, hoje, 32 milhões de pessoas no Brasil ainda
não têm acesso à água potável e cerca de 90 milhões não contam com coleta de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil.
Esses déficits estruturais se tornam ainda mais urgentes à medida que as mudanças climáticas avançam, trazendo enchentes devastadoras, secas prolongadas e eventos extremos cada vez mais imprevisíveis. A resposta para essa questão exige abandonar soluções fragmentadas, em silos, e adotar uma abordagem integrada, na qual água, saneamento e ação climática sejam
tratados como partes inseparáveis do mesmo desafio.
A formulação de políticas em silos significa que estratégias de adaptação climática são desenvolvidas sem considerar a
infraestrutura de água e saneamento, enquanto projetos de saneamento são implementados sem levar em conta vulnerabilidades climáticas. Sistemas de saneamento construídos sem resiliência são destruídos por enchentes, e comunidades sem
acesso à água potável não conseguem se recuperar de secas prolongadas.
Essa fragmentação desperdiça recursos, atrasa respostas a crises e aprofunda desigualdades. Populações vulneráveis são
as primeiras a sofrer e as últimas a se recuperar. Ao mesmo tempo, o acesso à água potável e ao saneamento protege a saúde
pública. Um relatório da Unicef mostra que, na América Latina e no Caribe, 4,8 milhões de pessoas enfrentam a dupla carga de
alta escassez de água e baixos níveis de serviço de água potável. Este é um dos principais fatores de mortalidade entre crianças
de 5 anos por doenças evitáveis. Serviços confiáveis atuam como primeira linha de defesa contra enfermidades agravadas pelas
mudanças climáticas, incluindo dengue, cólera e leptospirose. A inação agora resultará em maiores custos hospitalares, perdas
de produtividade e mortes evitáveis no futuro.
Integrar água, saneamento e ação climática gera benefícios concretos. Cidades que adotam pavimentos permeáveis, redes
de esgoto eficientes ou programas de restauração de bacias melhoram a gestão das águas, a produtividade agrícola e reduzem
os impactos de enchentes urbanas. A integração também fortalece a segurança alimentar e energética, pois proteger bacias
hidrográficas e expandir o reuso de água é essencial para a agricultura e a geração hidrelétrica – responsável por 60% da eletricidade na América Latina, segundo a IEA. Além dos números, soluções integradas aumentam a confiança social, já que comunidades que experimentam água segura, saneamento confiável e proteção contra desastres tendem a apoiar políticas climáticas
mais amplas.
Para avançar, governos devem definir metas claras e mensuráveis para integrar água, saneamento e clima, apoiadas por
investimentos estratégicos e monitoramento eficiente. Além disso, a sociedade civil deve ser empoderada como voz ativa na
construção de soluções que impactam suas comunidades.
(Por Muyatwa Sitali. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos. Acesso em: janeiro de 2026. Adaptado.)