A lente
(Ramires Linhares)
Quando menino, eu tinha por apelido “o fogo
de palha”. Estava sempre com um plano novo na cabeça
e, a respeito dele, falava entusiasticamente à minha família. Começava a tarefa, porém logo me sentia desanimado e a largava, desinteressado. E uma outra ideia
magnífica jorrava de meu espírito, para ter o fim de
sempre. Embora o fato se repetisse constantemente,
não existiam, em minha casa, comentários a respeito.
Em certo dia de verão, meu pai, que lia o seu
jornal na varanda, chamou-me. Estava com uma lente
na mão e me disse:
- Preste atenção e irá ver uma coisa muito interessante. É uma experiência...
Com o sol incidindo na lente, passeava o foco
de luz pela folha do jornal, porém nada acontecia. Eu
estava intrigado. Então, ele deteve o movimento e
manteve o ponto de luz imóvel por algum tempo, focalizando os raios solares. Dentro de poucos segundos, o
papel se incendiou e surgiu ali um furo. Aquilo me fascinou, mas não entendi logo o significado da experiência. Então meu pai me explicou:
- Meu filho, este princípio se aplica a tudo que
fazemos. Para alcançarmos qualquer êxito na vida, é indispensável concentrar todos os nossos esforços na tarefa do momento. É como a concentração dos raios do
sol filtrados pela lente. Enquanto ela percorreu às tontas a folha do jornal, nada aconteceu. Mas quando se
deteve, você viu o furo provocado. Tudo é questão de
paciência, tempo e concentração. Às vezes, quando estamos prestes a desistir, aparece-nos a solução do problema, justamente como no caso do furo no papel.
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