Magna Concursos
3760928 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: Legalle
Orgão: Pref. Igrejinha-RS
Provas:

Longa vida àqueles que ainda vivem para nos inspirar

Lembro das risadas que Ney Latorraca provocava

em novelas que iam ao ar logo após o telejornal onde

Gloria Maria exibia suas primeiras reportagens. Nos

intervalos, os bordões criados pela equipe de

Washington Olivetto nos induziam ______ escolher

determinada marca de geladeira ou de lingerie, e

depois, tevê desligada, era a hora de escutar Gal

Costa ou bailar com Rita Lee, mulheres modernas que

também devem ter lido as crônicas, contos e poemas

de Marina Colasanti, que abriu tantas portas para nós.

E um baque chegar nesta fase da vida sabendo

que amanhã ou depois virá a notícia de mais uma

baixa entre aqueles que fizeram parle da nossa

história. Estão nos deixando, um a um. Eles adoecem,

eles envelhecem − assim como nós. Perdê-los é

perder-se também.

O paradoxo é que, mesmo abalados por esta

"renovação de estoque" (assim Millôr Fernandes

designava o processo de nascimento e morte), ainda

assim, só temos a celebrar. Tivemos a honra de

sermos todos contemporâneos. Cada época tem seus

ícones, e minha geração foi bem sortuda com o elenco

que lhe coube. Que tipo de existência teríamos sem os

craques da Tropicália e do Asdrúbal, sem Domingos

Oliveira, sem Antonio Cicero? Os dias se tornam

inúteis se não escutamos uma canção ou lemos um

poema de algum mortal que ajuda a nos formatar.

Quem primeiro me alcançou um livro de Marina

Colasanti foi minha mãe, eu tinha 20 anos, e a partir

daí Marina também assumiu, para mim, um papel

maternal. Ambas − mãe em contato direto e escritora

em contato indireto − foram os faróis que me

conduziram na vida: Martha, é por aqui

Hoje sei que de nada vale o empenho diário −

trabalhar, sobreviver, cuidar dos outros, cuidar de si,

sofrer, resistir − se não formos compensados por

momentos de plenitude, em que nos conectamos com

as ideias e os sentimentos de estranhos que iniciam

um diálogo secreto conosco e fazem nossa

consciência se expandir.

Às vezes, quando fico sem ânimo com o rumo que

o mundo está tomando, me pergunto ___________

estou mofando dentro de um apartamento, cumprindo

horários e compromissos repetitivos a fim de manter a

ordem social, em vez de viver de forma mais lúdica, em

simbiose com a natureza, livre das agendas e das

expectativas dos outros?

Não ______ resposta certa, todo cotidiano é

imperfeito: nenhuma maneira de existir atende 100%

às nossas necessidades. Então passamos a vida

tentando nos adequar, até que chega o dia em que o

esforço não é mais preciso. Fim.

Em que tudo isso vai dar, afinal? Em nada. Somos

seres domesticados que cumprem o script universal e

que precisam desesperadamente de transcendência,

portanto, saudemos os talentos multiculturais que nos

salvam da brutalidade e da tacanhice. Longa vida

àqueles que ainda vivem para nos inspirar.

Autora: Martha Medeiros

No trecho Os dias se tornam inúteis se não escutamos uma canção ou lemos um poema de algum mortal que ajuda a nos formatar (l. 25-27), a palavra formatar pode ser interpretada como:

 

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