Para responder às questões 01 a 10, leia o texto abaixo.
"Eu poderia viver de entradas, por mim dispensaria os pratos principais"
1 Tudo começou com uma troca de mensagens em
2 um grupo de amigas no WhatsApp. Uma delas estava
3 hospedando alguém de fora e queria levá-lo a um
4 restaurante, mas como quase não saía, pediu uma
5 indicação: levo onde? "Churrasco, claro".
6 Em segundos, foram sugeridas três opções de
7 parrilla. Até que alguém recomendou um restaurante
8 novo, "dizem que é sublime", mas logo outra
9 apresentou um senão: "já fui, tem entradas fabulosas,
10 mas o menu de pratos principais não é lá essas
11 coisas".
12 Foi quando entrei na conversa: "Eu poderia viver
13 de entradas, por mim dispensaria os pratos principais".
14 Nem tinha terminado de digitar a frase e já havia
15 percebido que era a metáfora da minha vida.
16 Dali em diante, de restaurante passamos para o
17 papo de botequim. Era meio da tarde, uma delas
18 estava dando expediente em seu consultório, outra
19 estava de férias em João Pessoa e várias, como eu,
20 estavam diante da tela do computador, garantindo o
21 salário no fim do mês, mas o mundo parou e cada uma
22 encurvou-se sobre o seu celular a fim de palpitar sobre
23 o assunto. É por isso que o Brasil não vai pra frente.
24 Pois bem, as entradas. Em churrascos, avanço no
25 pão com alho e até flerto com o churrasqueiro se ele
26 acertar o ponto do salsichão. Frequento uma cantina
27 italiana só pela sua mesa de antepasto - me sirvo de
28 um pouco de tudo, e tudo é tanto que, quando chega a
29 hora de pedir a massa, acabo pedindo a conta.
30 Em festa de casamento e aniversários, só me
31 interessam os canapés. Uma pulsão pré-histórica de
32 comer com as mãos. Tem até um nome chique pra
33 isso: finger food. Ou: como ser fina sem usar o garfo e
34 a faca.
35 O fato é que tudo é "principal" na minha vida
36 (Filhos, trabalho, viagens, amigos, amores, solitude), só
37 que a sociedade não perdoa essa horizontalidade e
38 nos induz a pensar que, se tudo é principal, nada é.
39 Lamento, sociedade. Tudo me importa, tudo me é
40 essencial, e, ao mesmo tempo, a tudo relativizo, pois
41 somos efêmeros, provisórios.
42 Um dia irei morrer de alguma coisa, então
43 gargalho, danço, amo, me comovo, abraço a vida e a
44 provo desse jeito, aos bocadinhos, com o que os meus
45 dedos conseguem pegar. Dispenso o prato de
46 pedreiro, estou mais para um piquenique, um bufê de
47 frios e acordar leve na manhã seguinte (ok, delete a
48 imagem do salsichão).
49 O assunto aqui, na verdade, é estado de espírito
50 e transcendência, essas coisas abstratas e
51 pretensamente filosóficas que introduzi em um texto
52 que finge estar falando de comida e que talvez faça o
53 leitor se perguntar: mas o que foi que ela bebeu? Nada,
54 deixe pra lá. Estou apenas divagando sobre a
55 importância de facilitar a digestão neste mundo que
56 tem me caído tão mal no estômago.
Aulora: Martha Medeiros - GZH (adaptado)
O texto utiliza a metáfora gastronômica para refletir sobre escolhas de vida e perspectivas pessoais. Nesse sentido, com base no texto, é CORRETO afirmar que: