TEXTO III
A tirania da produtividade
Ronaldo Nezo
Vamos combinar uma coisa: estar sempre ocupado é
ótimo, não é? É a nossa medalha de honra no século 21. A
gente exibe a agenda lotada como se fosse um troféu de
campeão mundial. A gente fala da nossa “correria” com um
certo orgulho, como se dissesse: “Vejam como eu sou
importante, como sou necessário”.
A ocupação virou a desculpa perfeita para tudo.
“Não posso ir, tô numa correria.” “Não te liguei de volta,
o dia foi uma loucura.” “Não brinquei com você, filho, porque
o papai tinha muito trabalho.”
A vida apressada virou justificativa pra tudo. Estar
ocupado se tornou nosso escudo. Nosso salvo-conduto para
uma vida de desconexão.
Parece até que gostamos dessa loucura toda. Na
verdade, tenho a impressão que a gente sente certa
vergonha de dizer: estou tranquilo, agenda calma…
Mas… escuta o Ronaldo: já parou pra pensar no que
realmente significa essa vida sempre ocupada? E se essa
armadura de “pessoa importante e ocupada” for, na verdade,
uma prisão?
E se, por trás do nosso orgulho de sermos “produtivos”,
a gente estiver escondendo um medo terrível? Se tudo não
passar de uma espécie de estratégia inconsciente de nos
sentirmos importantes? E não passar de um pânico de ficar
em silêncio? Um pavor de encontrar a única pessoa da qual
a gente não consegue fugir: nós mesmos?
Dias atrás, falava sobre isso em sala de aula e uma
aluna comentou: “ah… professor, não dá. Não consigo ficar
sozinha com meus pensamentos. Se fizer isso, enlouqueço.
Preciso me ocupar”.
Pois é, gente… Essa necessidade de preencher cada
segundo do dia com uma tarefa, com uma notificação, com
um podcast, com um problema para resolver, muitas vezes
não é sinal de sucesso. É sintoma de ansiedade. É o medo
do vazio. É o medo de encarar as perguntas que a nossa
alma só faz quando a gente aquieta o barulho de fora.
E a gente paga um preço caríssimo por essa fuga. As
grandes ideias, os insights que mudam o rumo da nossa
vida… eles não nascem no meio do furacão de tarefas.
Ninguém dá sequer de conhecer a si mesmo, de olhar para
dentro de si, se não acalmar a mente. O processo de
introspecção precisa da calmaria, precisa do tédio. E a
nossa cultura parece odiar o tédio. Nós declaramos uma
guerra implacável ao tédio. Mal sabemos que, ao fazer isso,
estamos bombardeando nossa capacidade de pensar
criativamente, de refletir, de elaborar as próprias ideias.
Então, como a gente sai dessa prisão? Como a gente
para de ser escravo da própria produtividade? A resposta
não está em um novo aplicativo de organização. A resposta
está em pequenos e corajosos atos de rebeldia.
O primeiro ato de rebeldia: roube de volta 10 minutos
do seu dia. Dez minutos para não fazer absolutamente nada.
Sem celular, sem música, sem livro. Apenas você e sua
respiração, olhando pela janela. No começo, vai ser uma
tortura. Sua mente, viciada em estímulos, vai gritar por
distração. Mas se você insistir, depois de alguns dias, algo
incrível acontece. Vem a paz. Vem a clareza.
O segundo ato de rebeldia: pratique o “monotasking” –
a arte esquecida de fazer uma coisa de cada vez. Vai tomar
seu café? Tome só o café. Sinta o gosto, o cheiro, a
temperatura. Sem ler mensagens de whatsapp, sem ver o
Instagram, sem ouvir notícia. É um treino poderoso para
trazer sua mente de volta para o presente, o único lugar
onde a vida realmente acontece.
O terceiro ato de rebeldia: trate o descanso com a
mesma seriedade de uma reunião de negócios. Agende o
ócio. Proteja seu tempo livre como um leão. Dizer “não” a
um compromisso para poder descansar não é preguiça. É
estratégia de sobrevivência para a sua saúde mental
Pegou a ideia?
A verdadeira força no mundo de hoje não é aguentar a
agenda mais cheia. É ter a coragem de esvaziá-la um pouco.
Produtividade não é fazer mais coisas; produtividade é fazer
as coisas certas. E isso só é possível para quem tem a
ousadia de, de vez em quando, simplesmente parar.
NEZO, Ronaldo. A Tirania da produtividade. Saúde emocional, 03 set. 2025. Disponível em: https://blogdoronaldo.wordpress.com/2025/09/03/a-tirania-da-produtividade. Acesso em: 19/11/2025.