— Mãe… a senhora precisa se libertar dessas pessoas… A senhora não deve nada a elas, pelo contrário. Mãe… Sou eu, a Mabel, sua filha. Não tenha medo de encarar esse povo que nunca limpou a própria privada!
O sol estava a pino. Um vento quente e sem alívio soprava como lança-chamasB. No quintal da nossa pequena casa, mamãe estendia roupas. A cada camisa, calça, toalha pen- durada, o suor escorria pela ação do calor — útil para secar as peças mais rapidamente e deixá-las com cores mais vivas —, e misturadas a ele vinham lágrimas, que ela buscava sem sucesso disfarçarD. Estávamos ali numa espécie de dança entre os panos ondulando ao vento quente do subúrbio. Uma dança de esconder e revelar.
Eu dizia as frases entre dentes, sem disfarçar a minha raiva, e não omitia nada. Já estávamos ali havia um bom tempoC e usei de todos os argumentos para tentar incutir nela a ideia de que precisava enfrentar a família de seus antigos patrões.
Ela parou por meio segundo a tarefa e abaixou a cabeça, com os braços no alto, prendendo o jaleco com meu nome bordado. [...] Era como se, ao estirar os lençóis, as fronhas e as toalhas nos fios longos que formavam uma espécie de teiaA de uma ponta a outra no nosso quintal, ela fosse também alongando as lembranças e os pensamentos. [...]
Eu, ao contrário, não alongava nadaE. Estava toda encurtada na paciência. Respiração, fala, pensamentos, tudo entrecortado por um sentimento amargo e represado que transbordava mais que o tanque com roupas de molho.
(Solitária, 2022.)
O verbo “encarar” formou-se pelo acréscimo de prefixo e de sufixo a um radical. Esse mesmo processo ocorre com o verbo sublinhado em: