Pior que o 7 x 1
Por Rafael Battaglia Popp
Meu avô acompanhou a Copa de 1958 no radinho da oficina em que trabalhava. Meu pai
assistiu à de 1982 com a família em volta da TV. Viram Zico, Sócrates e cia. ao vivo e em cores.
Mágico, até sermos eliminados pela Itália. Eu acompanhei a de 2014 entre uma aula e outra do
colégio. Durante algumas delas também, confesso. Era ensino integral, foi difícil resistir. Mas não
fui o único: no laboratório de informática, a professora pediu a todos que desligassem as abas
com o minuto a minuto de Espanha x Austrália. Só que ela se esqueceu de mutar o próprio
computador, que foi o primeiro a gritar “gol” pelo alto-falante. Eu e meus amigos também
assistimos aos jogos nos sofás de uma loja de eletrodomésticos num shopping perto da escola,
no Centro de São Paulo. Era clima de Copa, e ninguém se importou com a nossa presença – até
um de nós deitar no chão em frente à TV. Não dá pra culpar o vendedor por expulsar um bando
de adolescentes caras de pau, ainda mais em uma época crucial para o varejo, em que as pessoas
aproveitam a data para dar um upgrade na TV de casa.
Parte da beleza da Copa é o sentimento de que todo mundo está ligado na mesma coisa.
Mas, neste ano, não será bem assim. Na matéria de capa, o editor Bruno Carbinatto mostra em
detalhes como a ascensão do futebol nos EUA contrasta com as restrições do evento, de
ingressos a preços impraticáveis às barreiras migratórias, que impedirão torcedores de
acompanhar os seus times. Mas há um outro tipo de barreira, que extrapola os estádios: a falta
de tempo. De que adianta uma TV nova se a impressão é a de que os dias estão cada vez mais
curtos? São expedientes com mais de dez horas diárias, muito comuns entre motoristas e
entregadores de aplicativo. Tempo perdido no trânsito e no transporte público. Poucas folgas nos
fins de semana.
A atual discussão sobre a redução da jornada de trabalho é uma das mais importantes
desta geração. É impossível falar em envelhecimento de qualidade, saúde mental e prática de
atividade física se _____ sobra tempo para aspirar a casa, preparar a marmita e ver um episódio
de The Office no fim do dia. Pior do que o 7 x 1 é a 6 x 1. O impacto econômico precisa ser
considerado, é claro. Mas dá pra fechar essa conta priorizando o bem-estar do
trabalhador, seja ele CLT ou autônomo. Está na Constituição Federal e na Declaração dos Direitos
Humanos: todo mundo tem direito a repouso e ______. Um tempo adequado para fazer o que
quiser – inclusive (e especialmente) assistir a Arábia Saudita x Cabo Verde numa sexta à noite.
(Disponível em: https://super.abril.com.br/sociedade/pior-que-o-7-x-1/ – texto adaptado especialmente para esta prova).