A onda dos peptídeos para beleza: por que pessoas estão injetando "drogas milagrosas" que não são para consumo humano
Katie retira cuidadosamente uma seringa da embalagem, perfura o topo de uma pequena ampola com líquido azul e puxa o êmbolo. Em seguida, injeta a agulha na parte superior das nádegas e, diante da câmera, faz sinal positivo com o polegar.
Há semanas, ela aplica em si mesma um peptídeo de cobre chamado GHK e afirma perceber melhora significativa na pele. Segundo relata, as marcas de estiramento surgidas após o nascimento de seus dois filhos quase desapareceram. O detalhe inquietante é que o frasco traz a inscrição "apenas para fins de pesquisa", indicando que a substância não é indicada para consumo humano.
Katie integra um grupo crescente de pessoas que se filmam nas redes sociais, utilizando peptídeos não aprovados. Apesar do alerta no rótulo, acredita agir com prudência e afirma ter pesquisado bastante antes de iniciar o uso, começando com doses reduzidas para observar possíveis reações.
Ela declara ainda que o produto aumentou a espessura de seu cabelo e melhorou a textura da pele. O GHK é um peptídeo produzido naturalmente pelo organismo e utilizado em cremes tópicos para reduzir linhas finas. Contudo, não é considerado seguro para injeção devido à escassez de estudos científicos e ao risco de desencadear reações imunológicas potencialmente graves.
Peptídeos são cadeias curtas de aminoácidos, isto é, pequenas proteínas que o corpo humano produz. Funcionam como mensageiros celulares, orientando diversas atividades orgânicas. Desempenham papéis importantes na saúde da pele, no sistema imunológico e na regulação hormonal.
Há mais de um século, certos peptídeos são empregados no tratamento de doenças. A insulina, por exemplo, permite que pessoas com diabetes controlem os níveis de açúcar no sangue. Recentemente, medicamentos que imitam o hormônio associado à sensação de saciedade passaram por testes rigorosos e foram aprovados por agências reguladoras, como as autoridades sanitárias do Reino Unido e do Brasil.
O sucesso desses medicamentos contribuiu para o surgimento de um mercado paralelo de outros peptídeos não regulamentados. Embora sua compra ou posse não sejam ilegais, eles não são aprovados para uso humano e não se submetem aos controles de qualidade exigidos para produtos farmacêuticos.
Especialistas afirmam que se formou um cenário favorável à expansão dessas substâncias. O uso disseminado de medicamentos injetáveis regulamentados reduziu a resistência psicológica à autoinfeção. Assim, algumas pessoas supõem, de maneira equivocada, que todos os peptídeos seriam igualmente seguros.
Nas redes sociais, multiplicam-se anúncios e vídeos de influenciadores aplicando em si mesmos diferentes combinações vendidas apenas para pesquisa. Certos compostos são divulgados como promotores de ganho muscular e recuperação acelerada; outros prometem reduzir inflamações e melhorar a saúde metabólica. Muitos desses produtos têm origem sintética e foram testados apenas em estudos preliminares com animais.
Pesquisadores alertam que, ao utilizarem tais substâncias, os indivíduos assumem o papel de experimentadores de si próprios. Há registros de efeitos adversos como tontura, diarreia, irritações e inchaço. Além da ausência de estudos robustos em humanos, análises indicam que parte dos produtos disponíveis contém endotoxinas bacterianas capazes de provocar febre, dores, exaustão e, em casos extremos, choque séptico.
Um jovem decidiu recorrer a um conjunto de peptídeos para tratar uma lesão nas costas adquirida na academia. Após algumas semanas de uso, relatou melhora expressiva e redução quase total das dores. Antes disso, havia consultado médico e realizado fisioterapia, sem obter o resultado esperado. Reconhece, porém, que a prática parece extrema e admite que há riscos envolvidos.
Para alguns especialistas, esse comportamento representa uma aposta biológica. Caso a chamada cultura da "cobaia" se amplie, poderá surgir um problema de saúde pública marcado por condições crônicas associadas a substâncias ainda pouco compreendidas pelo sistema médico.
Enquanto milhões de publicações sobre o tema circulam nas redes, cresce também o número de clínicas que oferecem terapia com peptídeos não regulamentados. Profissionais que defendem essa abordagem sustentam que vivemos um momento promissor para tais substâncias e apontam dificuldades financeiras e ausência de patentes como fatores que desestimulam a realização de testes clínicos extensos.
Como muitos desses compostos são semelhantes a moléculas produzidas naturalmente pelo corpo, torna-se difícil registrá-los como propriedade exclusiva, o que reduz o interesse de grandes empresas em investir no processo de aprovação formal. Em clínicas que oferecem tais terapias, a utilização ocorre sob supervisão médica; ainda assim, a inexistência de diretrizes oficiais faz com que o aprendizado se dê principalmente por troca de experiências entre profissionais.
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvgvrl695vlo.adaptado.
Ela declara ainda que o produto "aumentou" a espessura de seu cabelo e melhorou a textura da pele.
Considerando a regência do verbo destacado no período, assinale a alternativa CORRETA.